A história do GP dos Estados Unidos: o choque de estilos

Os Estados Unidos são um dos principais polos do automobilismo mundial. As categorias da Indy e da NASCAR, apesar de enfrentarem inúmeros problemas, reúnem fanáticos por todo o país. Apesar disso, a Fórmula 1, carregando consigo as origens europeias, enfrentou dificuldades para se estabelecer na terra de Trump e Obama.

As categorias americanas correm principalmente nos ovais, ao passo que a Fórmula 1 corre em circuitos mistos e variados. Alguns, de alta velocidade, como Monza; outros travados, como Húngria e Mônaco. Essa variedade pode resultar em corridas mais estratégicas, com menos ação na pista. No geral, o estilo americano de corrida é justamente o contrário, sempre procurando oferecer um explosivo espetáculo. Além disso, raramente equipes e pilotos estadounidenses tiveram sucesso ou longa passagem pela categoria. Mesmo o sucesso de fornecedores como a Ford não foi suficiente. Até o fuso horário das provas europeias dificulta a vida do fã de F1 por lá. Todos esses fatores, aliados a problemas logísticos e burocráticos, compõem essa interessante história de adaptação.

Oficialmente, o primeiro GP americano incluído no calendário da F1 se deu em 1950. Na época, as 500 Milhas de Indianapolis faziam parte do campeonato. Desde então, outras nove localidades sediaram a corrida, incluindo um retorno à casa da Indy. A partir de 2012 o belo Circuito das Américas, em Austin, recebe a maior categoria do esporte a motor. Por enquanto, tudo indica que finalmente ela achou seu lugar. Vamos explorar um pouco a história de cada uma dessas sedes, além de algumas edições memoráveis.

A prova isolada em Indianapolis (1950-1960)

Como dito, por um período a Indy 500 foi parte do campeonato mundial de pilotos da F1. Nesses dez anos, poucos participantes europeus correram, com exceção de alguns nomes como Juan Manuel Fangio e Alberto Ascari. As dificuldades logísticas eram muitas, mas era uma consequência da expansão mundial da categoria. Ainda assim, a maioria das provas acontecia em solo europeu. Por isso, podemos dizer que era uma etapa isolada do restante do campeonato, dominada pelas equipes e pilotos americanos.

O vencedor da Indy 500 de 1950  foi o americano Johnnie Parsons. (Fonte:https://www.wibc.com/media/galleries/1950s-500-winners-10-photos)

Tentativa em Sebring (1959)

Ainda com a Indy 500 no calendário, a última corrida da temporada de 1959 também foi nos EUA, no circuito de Sebring, na Flórida. Dessa vez, denominado como American Grand Prix oficialmente. Dos 19 pilotos, seis eram americanos. A prova decidiu o campeonato para Jack Brabham, da Cooper, superando Stirling Moss e Tony Brooks. A vitória ficou com o companheiro de equipe do australiano, o senhor Bruce Mclaren, a primeira dele na categoria e a primeira de um neo-zelandês, com apenas 22 anos. Porém, comercialmente não foi um bom negócio e no ano seguinte a sede mudaria novamente.

Sob o sol da Califórnia (1960)

Com o fracasso da edição anterior, a nova pista escolhida para sediar o GP foi Riverside, a leste de Los Angeles, Califórnia. Porém, algo digno de nota e desanimador para as equipes: a corrida foi realizada dez semanas depois do GP anterior, com o campeonato já decidido. Mesmo assim nomes como Brabham, Moss, Mclaren, Graham Hill e John Surtees correram. De forma similar ao ano anterior, foi um fracasso financeiro, baseado em um pobre trabalho promocional que resultou em poucos espectadores.

Stirling Moss at the United States Grand Prix West at Riverside on November 12, 1960. (Photo: Allen Kuhn)

O vencedor de Riverside, Stirling Moss. (Crédito:Allen Kuhn)

A longa estadia em Watkins Glen (1961-1980)

Em 1961, um novo local foi escolhido. Voltando para a costa leste, Watkins Glen, no estado de Nova York. Lá ficou por 20 anos, se tornando um Grand Prix muito mais estabelecido no calendário e cenário de provas históricas. Para nós, especialmente a primeira vitória brasileira na F1, com Emerson Fittipaldi no volante da Lotus. Naquele ano Emerson perdera o companheiro de equipe Jochen Rindt, e sua vitória garantiu o único título póstumo da categoria para o austríaco.

Mesmo hoje com a construção do Circuito das Américas, muitos consideram Watkins Glen como a sede tradicional do Grand Prix americano. O grande público que vinha todos os anos para ver a última corrida do calendário viu nos anos 60 uma dominância dos britânicos, nas mãos de Jim Clark, Jackie Stewart e Graham Hill. Mas também presenciou nos anos 70 terríveis acidentes como os que tiraram a vida de Helmut Koinigg e François Covert. Com o passar dos anos, mudanças no traçado deixaram a pista cada vez mais agressiva e rápida. Junte isso a mais problemas financeiros, incluindo dívidas com as equipes, e mudamos de localidade novamente para 1981.

Fittipaldi vence o GP de 1970 pela Lotus. (Reprodução: globoesporte.com/ Facebook Emerson Fittipaldi)

O GP dos EUA do Oeste (1976-1983)

Nesse meio tempo, em 1976, outra etapa americana foi adicionada. O chamado GP do Oeste acontecia em Long Beach, novamente na Califórnia. Essa pista de rua, hoje muito relacionada à Indy, pretendia ser uma Mônaco do Novo Mundo. Criado no contexto dos acidentes mencionados acima, com problemas escalando em Watkins Glen, o GP teve sua medida de sucesso e dias memoráveis. Entre eles, a primeira vitória de Nelson Piquet, pela Brabham. O brasileiro andou muito bem todo o fim de semana e ainda contou com a companhia de Emerson no pódio, em terceiro.

Eram os primeiros passos no respeitável histórico tupiniquim nas pistas americanas. Detalhe importante: o mais famoso piloto americano da F1, Mario Andretti, coleciona uma vitória em Long Beach, em 78. Além disso, das oito provas, cinco foram ganhas com a propulsão dos motores Ford. Bons argumentos para estreitar os laços da turma de Ecclestone com os EUA. Contudo, com muitas indefinições sobre o traçado e mais desentendimentos na ordem do capital fizeram com que a edição de 1983 fosse a última.

O fracasso em meio ao glamour (1981/1982)

Em 1981, com a saída de Watkins Glen, os americanos estavam a procura de mais um lugar para a segunda corrida do ano no país. As negociações apresentaram como resultado nada menos que a cidade de Las Vegas, Nevada, como resultado. O traçado, também de rua, foi montado no estacionamento do famoso hotel Caesars Palace. Isso resultou em uma pista muito peculiar, até bem estruturada e com boas áreas de escape. Porém, o circuito não agradou os pilotos devido principalmente ao calor do deserto de Nevada. Hoje, é considerada como uma das piores pistas que a F1 já correu. Mas não deixou de escrever seu nome na história, proporcionando duas decisões de campeonato: 81 para Piquet e 82 para Keke Rosberg. Portanto, pouco frequentado e objeto de mais prejuízo, o Grand Prix de Las Vegas não sobreviveu mais de duas edições.

Apesar de tudo, Vegas deu a Piquet o primeiro título na F1. (Fonte:http://pordentrodosboxes.blogspot.com/2011/12/os-tres-mosqueteiros-2-nelson-piquet.html)

A F1 na cidade do automóvel (1982-1988)

No ano de 1982, de cara, ninguém poderia dizer que a relação da F1 com os EUA não era boa. Em um mesmo ano (algo inédito até hoje) três GPs foram realizados em um mesmo país. E ainda bem distribuídos durante a temporada: em abril o GP do Oeste, em setembro o “Caesars Palace Grand Prix, e em junho o novato GP de Detroit. A cidade do nordeste americano oferecia mais um circuito de rua não muito desafiador. Em sete anos, quatro vitórias brasileiras: três para Senna (86, 87 e 88) e uma para Piquet (84). Sem agradar os competidores e com mais motivos para sair do que ficar, Detroit também entrou na lista de GPs que não emplacaram.

Primeira passagem pelo Texas (1984)

Em 84, o Grand Prix do Oeste foi trocado por uma prova na cidade de Dallas, no Texas. Em mais uma tentativa de aumentar a popularidade do esporte no país, uma pista foi montada em Fair Park. Porém, muitos problemas envolveram o final de semana. O asfalto simplesmente despedaçava com a passagem dos carros, além de novamente o calor afetar o desempenho dos pilotos. A corrida foi ganha por Keke Rosberg, mas apenas oito monopostos cruzaram a linha de chegada. Nada disso serviu de argumento para a manutenção do evento, que durou apenas uma temporada.

Nigel Mansell se recupera depois de um cansativo GP em Dallas. (Jan Sonnenmair/The Dallas Morning News)

O último nas ruas (1989-1991)

A última cidade a sediar um GP americano foi Phoenix, no Arizona. Da mesma forma que Dallas, os organizadores buscavam transformar a cidade em um ponto turístico internacional. Passado o período das corridas múltiplas no país, de 89 a 91 Phoenix sediou o unificado “United States Grand Prix“. A pista não era nada espetacular, apesar de ter oferecido boas disputas. No período, mais duas vitórias para Senna (90 e 91) e uma para o rival Prost (89). Seriam as últimas corridas nos EUA para essa geração, já que depois de 91 o evento não conseguiu se achar no país, criando um hiato de nove anos, até 1999.

O grande retorno a Indianapolis (2000-2007)

O futuro da corrida parecia perdido até que em 2000 um acordo foi selado para Indianapolis voltar a fazer parte do calendário da F1. Correndo na parte mista do circuito, a categoria teve bom momentos por lá, atraindo um bom número de espectadores (mas nada comparável à Indy 500). Foi nesse período que Michael Schumacher conseguiu suas 5 vitórias nos EUA, igualando-se a Senna. Ainda, em 2002, vimos uma vitória de Rubens Barrichello, um agrado de Schumacher pelo ocorrido na Áustria naquele ano. Contudo, a imagem que ficou da passagem por Indianapolis foi infelizmente da prova de 2005. Naquele dia, apenas seis carros competiram, todos aquele que calçavam os pneus Bridgestone. Todos os outros não largaram por questões de segurança. Esse fiasco ainda não impediu mais duas edições do evento, sendo seu último vencedor Lewis Hamilton em 2007. Um GP nos EUA não ocorreria até 2012.

Os seis carros que correram em Indianapolis no ano de 2005. (Fonte: http://www.autoracing.com.br/f1-montoya-farsa-de-2005-nao-teria-ocorrido-no-novo-tracado-de-indianapolis/)

A nova casa em Austin (2012- presente)

Em 2012, foi inaugurado o Circuito das Américas, próximo à cidade de Austin, no Texas. Planejado pelo experiente designer Hermann Tilke, foi a primeira pista americana construída para abrigar a Fórmula 1. O traçado, ao contrário de pistas aproveitadas e circuitos de rua mal planejados durante todos esses anos, é adepto do estilo da F1, com curvas de alta, baixa, subidas e descidas. Pelo menos por enquanto, representa uma simbiose muito boa entre o estilo mundial de automobilismo (representado pela FIA e a F1) e o estilo americano. Ao mesmo tempo que vemos bandas, desfiles, líderes de torcida e aviões a jato, temos o DNA de uma prova da maior categoria do automobilismo. Tomara que a corrida se estabeleça de vez por lá e com o tempo possa entrar no hall de templos mundiais do esporte.

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