História – A Última Foto de Ascari (1ª Parte)

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Antes que o Medo se Aloje

Quinta-feira, 26 de maio de 1955.

Dia de sol forte em Milão. Pouco depois da hora do almoço ele chega àquele pit lane, de bom humor apesar das escoriações visíveis em seu rosto. Esses machucados foram causados pelo despiste da semana anterior, quando o principal ás italiano, bicampeão mundial e peça essencial para o desenvolvimento do carro da Lancia na Fórmula 1, sofre (aparentemente) uma falha nos freios de sua D-50 depois do túnel e mergulha no cais do porto de Monte Carlo; nadador forte, ele viera a tona mas com uma fratura no nariz e diversos arranhões.

Ciccio – ‘gordinho’ – como é carinhosamente conhecido, chega ao autódromo de Monza uma semana depois vestindo paletó e gravata para ver como estão os preparativos da Ferrari 750, carro esporte no qual competirá, em parceria com seu jovem amigo Eugenio Castellotti, os 1000km da Supercortemaggiore na semana seguinte. Surpreendendo a todos, ele pede emprestado o capacete de Eugenio para esquentar a Ferrari na pista; supersticioso como era, ninguém esperava que Ciccio entrasse em um carro de corridas usando um capacete que não fosse o seu característico casco azul-celeste. Ao perguntar sobre a recuperação pós-Mônaco, Castellotti ouve Ciccio dizer:

_ Depois de um acidente, é preciso voltar a correr logo, senão o medo se instala.

Ele quer dar apenas umas quatro ou cinco voltas em ritmo de estudo no circuito. Eugenio cede-lhe o capacete branco, Ciccio esconde a gravata dentro da camisa, entra na Ferrari, gira a chave e acelera saindo dos boxes. As poucas testemunhas presentes observam ele ir ganhando velocidade e ritmo na pista. E vêem sua gravata ao vento na terceira passagem pela grande reta de Monza. 

 

                                                                                             “Monza, 26 de Maio Hora: 12:25                                                                                                                   ESSA É A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE ALBERTO ASCARI – O campeão, Castellotti, o carro, poucos minutos antes da tragédia.                          Ascari acaba de pôr o capacete de seu amigo e está prestes a iniciar os testes que seriam fatais.”

O ronco da Ferrari se distancia mas é sempre claramente audível por todo o traçado e quem o escuta, sabe em qual trecho da pista se encontra o grande campeão de Fórmula 1: no tempo em que não havia chicanes em Monza, ao contornar a Curva Grande com pé embaixo não se estava muito longe dos 300km/h. Uma freada preparatória para as duas de Lesmo, diminuir uma marcha, duas, entrar a primeira perna à direita, acelerar um pouco, frear de leve, diminuir outra marcha e entrar pela segunda perna à direita. Depois, voltar a acelerar desimpedidamente rumo à quase imperceptível Serraglio, passar por baixo do Anel Norte e, sempre com o pé no fundo do acelerador, começar a encarar a longa e velocíssima esquerda da Vialone…

… mas ali, enquanto os ouvintes desenham em pensamento a tocada suave de Ciccio, um som estranho imediatamente alarma a todos: o acelerador foi solto repentinamente e agora, é um longo e inconfundível estridente de pneus fritando no asfalto que ressoa por todo o Parque de Monza. Num átimo todos pensam: Uma freada? Na Vialone? Não pode ser bom… e o som seguinte confirma de maneira dramática o presságio: um breve silêncio e o terrível ruído de metal sendo macerado e dos destroços do carro voando para todos os lados. Antes mesmo do som do acidente cessar, todos já correm para a direção daquele terrível sinal. E ao chegarem, encontram a fumegante Ferrari em frangalhos na beira da pista e o corpo de Ciccio, que havia sido lançado a distância, inerte no chão.

(…)

Assim morreu o grande Alberto Ascari.

Estilista, dono de uma tocada pura e absolutamente irresistível se largasse na frente, o italiano foi exclusivo detentor (até bem pouco tempo) do recorde mais antigo da História da F1 9 vitórias consecutivas. Conseguiu mais 4 vitórias na carreira (todas as suas vitórias no Campeonato Mundial foram pela Ferrari) e foi o piloto quem primeiro alçou alto a lenda do Cavallino Rampante na F1 moderna. Ainda conseguiu 14 poles e 12 voltas rápidas em 32 largadas na F1. Também havia a acrescentar lenha para a fogueira do drama pessoal de Ascari, uma estranha sucessão de coincidências que certamente, passada a sua morte, o põe em mira de um sem número de anedotas fantasmagóricas. Tem quem pense que o fabuloso bicampeão italiano era amaldiçoado. E o próprio, pela sua maneira de ser, alimentava essas suposições. Malgrado seu talento, é realmente estranho os fatos em torno de sua morte: filho de um grande piloto da década de 20, como seu pai encontrou a morte numa curva veloz à esquerda de uma pista de corridas, num dia 26 e pouco antes de completar 37 anos. As parecenças marcam a passagem de Alberto nesse mundo: venceu 13 GP’s e seu acidente fatal aconteceu exatamente à 1h13 da tarde. A causa de seu último despiste é, até hoje, um grande mistério e há quem acredite que ele perdeu o controle numa tentativa desesperada de evitar atropelar alguém que atravessava a pista. Outros, acreditam que foi a gravata o que de alguma forma lhe tirou os reflexos…

Este ano de 2018 se completou o centenário de seu nascimento. E a data foi numa sexta-feira 13… imagine só o que o supersticioso Ciccio diria.

O Homem De Duas Sombras

– Esse é o título de uma famosa biografia sobre Alberto Ascari, lançada em 1981. Nela, o experiente inglês Kevin Desmond disseca de maneira tocante o vulto do homem e a força do mito. Desmond acredita que Alberto carregava, além da sua, a sombra de seu pai. De fato, Ciccio viveu tanto uma vida recheada de grandeza e misticismo que logicamente deixou muito o que falar aos comentaristas e isso nos dois extremos da realidade – tanto do “natural” quanto do “sobrenatural”. Para Desmond, muito há para explorar do aspecto psicológico do fabuloso piloto italiano; um completo atormentado pelas coincidências de sua vida, há nos fatores da situação que culminaram com sua morte uma certa consonância macabra. O que teria feito o piloto convalescente sair de casa, de terno e gravata (e sem seu kit de corrida) em direção ao circuito naquela quinta-feira, num dia 26, data em que ele evitava de todas as formas correr por ter sido num dia 26 a data da morte do pai?… o que teria feito ele assumir o volante de maneira tão pressurosa, abdicando inclusive de usar o capacete azul, seu talismã?…

Mas ainda que não sobrasse esses elementos de inexplicabilidade na vida e morte de Ascari, o que ele viveu de maneira natural já daria uma história estupenda.

Seu pai foi ninguém menos que Antônio Ascari, a grande estrela italiana dos Grandes Prêmios da década de 20. Antônio era, acima de tudo, um pai amoroso e homem devotado à família. Casado com Elisa Marelli (segundo Alberto, uma verdadeira maresciallo…), e já pai de Amedea (que tinha três anos quando Alberto nasceu), compensava a austeridade da esposa em relação às crianças dando aos bambinos carinho irrestrito. Além de fazer seu nome grande nas pistas de corrida, Antônio era também negociante de carros – não só era o líder natural entre os pilotos de competição da Alfa Romeo como também gerenciava a principal concessionária da Alfa na Lombardia, uma loja no térreo do edifício onde moravam em Milão, na Corso Sempione, número 60. Alguns chamaram Antônio de “Loiro Bovino” por conta do aspecto duro que seu rosto assumia às vezes. Ele tinha aquele olhar de esfinge, de olhos vidrados e lábios um pouco contorcidos sobre o queixo forte, caracterizando um tipo sério, daqueles que você pensa estar diante de um achado quando vê sorrir – mas Antonio era duro só na aparência. Ao falar da família seu rosto largo se iluminava e você poderia ver o quanto aquele homem era generoso. Recebeu o interesse do filho Alberto pelas corridas com rasgado orgulho e há para atestar isso fotos da época em que o pequeno aparece, nos pits de Monza, trajando seu pequeno fato de marinheiro ao volante do bólide de seu bem-sucedido pai.

Monza, 1924: Antônio estragando seu filho Alberto, com Enzo Ferrari de cúmplice (no meio).

Alberto, com cinco anos, passeava com o pai em sua RL de turismo pelas vias de um parque em Milão, quando Antonio em marcha tomou o filho do banco de carona e o pôs no colo dizendo “Assume! “; familiarizado com seu carrinho de pedal, o pequeno destemido se agarrou ao grande volante da RL e esterçou com confiança. “Ele vai ser um grande bota!…” se gabava seu pai a quem quisesse ouvir. Alberto teve o primeiro gosto da velocidade novamente empoleirado no colo pai, no fim de um dia de testes com a mítica Alfa P2, no quase recém-inaugurado Autódromo de Monza.

Como piloto, Antônio ganhara de parte da imprensa especializada o apelido de “Acrobático”. Tem quem diga que ele tinha lá sua tranquilidade ao volante, tão boa era a sua técnica. Mas constatar a calma no estilo de Antonio não era unanimidade: correu a história de que os oficiais de Monza deram tão azeda queixa da maneira perigosa com que ele atacava as curvas do circuito, que ele foi ameaçado de ser banido da pista caso não moderasse seu ímpeto. “Veja bem…” tentou se explicar Antonio certa vez,  “é tão dificil não se deixar levar pelo – como dizer?… – pelo tentador encanto da velocidade. É como correr por um grande tubo. Mas é preciso sim se refrear.” O jornalista Sandro Ferretti disse na época que “… a aparente audácia de Ascari é fruto de um treinamento metódico e incansável, que ele executa, com escrúpulo e zelo, estudando a rota certa em cada corrida.” Em outras palavras, ele aprendia tão bem o traçado, que podia explorá-lo tanto mais a fundo em relação aos outros competidores. Estava no auge da fama e da forma, vencendo em sucessão corridas importantes a bordo da possante P2 quando a morte o apanhou enquanto liderava com enorme vantagem o GP da França no espetacular autódromo de Montlhery… sete semanas antes de completar 37 anos e treze dias depois de seu filho completar 7 anos. O impacto da morte do pai foi imensurável para o pequeno Alberto; ele jamais esqueceria a dor que sentiu no funeral e o quanto chorou sendo levado pela mão de Giulio Ramponi, o fiel mecânico de seu pai. Mais tarde, esse episódio trágico faria com que Alberto se tornasse um pai severo e duro pois, sendo piloto, não queria que seus filhos se afeiçoassem a ele para sofrerem demais caso ele morresse nas pistas.

Alberto montado em sua Sertum.

Na esteira da grande idolatria que nutria pelo pai – se não pensasse em ser piloto –, Alberto no mínimo teria que amar a mecânica. Nos intervalos do liceu, cultivou amizade com um certo mecânico chamado Goliardo Bassetti, o qual lhe entregou uma moto em mãos para que este a esquentasse numa praça de Milão. Isso engatilhou pela primeira vez um desejo que Alberto precisava satisfazer. O caçula disse (cinco vezes seguidas) à mãe que alguns meninos maus estavam roubando seu dicionário de grego… Ao que a mãe lhe cedia algum dinheiro para um livro substituto, a cada vez que ele comprava um dicionário seguia depois para um sebo e ali vendia o volume novo multiplicando os ganhos. Com isso, conseguiu dinheiro suficiente para pagar algumas horas de lazer num locatário de motos, fazendo inclusive viagens até Monza, ao norte de Milão. Com 14 anos foi negociar com a maresciallo Elisa: se empenharia ao máximo nos estudos se, ao passar nos exames finais do ginásio, ela permitisse que ele comprasse uma moto. Ela concordou com cautela; mas nos exames, Alberto foi bom o suficiente pra que a mãe cedesse de bom grado à compra de uma grande Sertum Twin de 500cc. Assim que montou na moto, o rapazinho perdeu de uma vez por todas o interesse nos estudos. Elisa respondeu mandando o filho para um internato em Arezzo, enquanto a Sertum aguardava em Milão o jovem criar algum juízo. Mas assim que pôde, Alberto fugiu. A mãe então o enviou a outro internato, ainda mais longe, em Macerata. De novo, o jovem evadiu, dessa vez trajando um ordinário mufti, e abandonando pelo caminho seu uniforme escolar antes de entrar num trem de volta a Milão – o que deixou as autoridades de Macerata em polvorosa, a procurarem em vão por um menino maluco e nu. Mãe e filho estavam agora em franca disputa. Alberto capitulou ao prometer reaplicar-se aos estudos o que ele realmente se esforçou por fazer mas dessa vez, ficou aquém nos exames. Contudo, já completados seus 18 anos, nada mais o poderia privar da paixão pela Sertum. Em 28 de Junho de 1936 ele a inscreveu num cross de regularidade com duração de 24 horas no norte da Itália. Essa sua primeira competição foi marcada por dois tombos: um na Passagem de Cisa e outro assim que passou por Pisa, quando o freio falhou e ele entrou desembestado num banho público, assustando um sem número de senhoras que ali estavam antes de mergulhar na lama de um campo de tomates… Depois de um reparo em maquina e piloto, ele venceu na sua categoria no trial de Lario uma semana depois, seu primeiro sucesso.

A isto seguiram outros e o mundo do esporte a motor se alegrou com a volta do nome Ascari ao topo das disputas. Marcando presença com habilidade e coragem, Alberto indicava-se destinado a uma grande carreira. Mas logo teve que lidar com uma interrupção de nível mundial a atrasar seus planos…

Um Apaixonado Sobrevivendo à Guerra

Logo no princípio da 2ª Grande Guerra, Alberto conheceu um jovem contagiante de Milão que se tornaria seu mais íntimo amigo. Luigi Villoresi vinha de família das mais notáveis na Lombardia, que já havia dado à sociedade milanesa dois grandes talentos – um no ramo da engenharia (seu avô Eugênio, que concebera o famoso canal de irrigação que leva o nome da família) e outro no ramo de Paisagismo e Botânica (seu tio-avô, também chamado Luigi). “Gigi” era o primogênito de cinco filhos e todos os seus irmãos haviam morrido tragicamente. Ele ainda se recuperava do choque da morte de seu querido irmão Emílio (com quem disputara a Mille Miglia de 1935 e 1936), que sucumbira a um acidente fatal em Monza testando uma Alfetta para Enzo Ferrari. O carro era um projeto experimental e quando a família pediu a Enzo detalhes do carro para poder receber a quantia do seguro e Enzo se recusou, Gigi perdeu definitivamente toda a estima que pudesse sentir por aquele homem. Alguns meses depois, um jovem se aproximou de Villoresi, perguntando a respeito da venda de uma Alfa Romeo para competição. “Eu o convenci de que seria melhor comprar uma Maserati, um modelo monolugar superalimentado de 1,5 litro com 6 cilindros, que eu venderia pra ele por 12 mil liras. Ele me disse que poderia pagar esse valor porque outro piloto de corridas, Piero Taruffi, havia concordado em acompanhá-lo no acordo. O que ele não sabia era que eu havia comprado essa Maserati apenas algumas horas antes em Pavia, e que a frente do motor ainda estava quente devido à soldagem! Mas era tarde demais. Ele comprou o carro. Assim, minha primeira impressão desse jovem (assim como a dele a meu respeito) não foi exatamente favorável. Seu nome era Alberto Ascari “.

Villoresi, Ascari & Ferrari em Monza ’53.

Taruffi lembrou da transação com Ascari um pouco diferentemente: “Eu tinha vendido meia-parte do meu Maserati de 1938 para Alberto Ascari, a quem eu conheci em eventos motociclísticos quando ele pilotava uma Bianchi 350. Ele estava ansiosíssimo para ser recrutado pela equipe da Gilera, mas não havia vaga. E como simplesmente a paciência não fazia parte do seu gênio, ele se ofereceu para comprar uma meia-parte em minha Maserati sob a condição de que ele poderia dirigir em Trípoli e no Targa Florio.” O caso é que, de um jeito ou de outro, Alberto tornou-se sócio na compra de uma Maserati 6CM de terceira mão.

Em 10 de março, l’Auto Italiana anunciou que Alberto Ascari, “filho do prematuramente morto e inesquecível ás”, faria o sua estreia no automobilismo em Maio, na Targa Florio. Como tinha sido desde 1937, esta corrida foi realizada no circuito de estrada com quase 6km no Parque Favorita, situado na borda oeste de Palermo, num vale rico entre duas cadeias de montanhas. Um evento monomarca (com carros Maser), era mais semelhante a uma prova de Grande Prêmio, não tanto aquele famoso enduro de carros-esporte. Seriam 40 voltas. Mas em Abril saiu a notícia de que Enzo Ferrari (recém saído da Alfa Romeo) construíra um carro-esporte para disputar a classe até 1500cc da Mille Miglia, e que Alberto iria pilotar um exemplar dessa nova máquina. Assim, em 28 de Abril, sua grande estreia em corridas de automóveis foi antecipada. Ascari, então a bordo daquele Avio 815, usando o número 66 e acompanhado por seu primo Giovanni Minozzi, recebeu bandeirada para a partida exatamente às 6h21 da manhã. Vestia seu traje típico de motociclista – um colete sem mangas por cima da camisa – e com pé pesado, assumiu facilmente a liderança em sua classe. Mas na segunda volta, o carro cedeu à pilotagem ousada e pôs Ascari fora da disputa. Naquele tempo o apreço do jovem pela mecânica não era tão cuidadoso. Essa foi o primeiro grande teste de Alberto Ascari em um carro, numa corrida.

Alberto Ascari com seu amigo Silvio Vailati na primeira criação de Ferrari – o Auto Avio 815 – com o qual competiu sobre quatro rodas pela 1ª vez na Mille Miglia de 1940.

Esperando que a Mercedes-Benz retornasse ao rápido circuito de Mellaha com os pequenos e poderosos W165 (vencedores do GP de Tripoli do ano anterior), a Alfa Romeo havia treinado assiduamente para a corrida daquele 12 de maio de 1940 com o seu tipo 158. A Maserati também foi a briga com toda a sua equipe de fábrica. Com uma oposição desse calibre, o jovem Alberto fez bem em qualificar no 12º mais rápido (de 23 participantes) e terminar em nono, duas voltas atrás dos líderes, em sua obsoleta Maserati.

Onze dias depois, em uma quinta-feira, ele competiu em Palermo a Targa Florio. Lá ele teve não teve sorte, saindo da estrada e danificando seu Maserati. No domingo de 26 de Maio, (um pouco menos atento à superstições) Ascari foi a Gênova para a corrida de motocicletas que estava destinada a ser o último evento de motorizado antes da Itália entrar na guerra em 10 de junho. Tragicamente, nessa prova ele testemunhou a lesão fatal de seu amigo Silvio Vailati decorrente de um acidente. Nem sua saida da Targa e nem a morte de Vailati davam bons pensamentos para Ascari cultivar em tempo de guerra.

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Durante a Guerra, Gigi e Alberto se tornaram (junto com um  tio de Alberto) sócios num lucrativo negócio de exportar petróleo e veículos de transporte para a zona de guerra do norte da África. Ascari logo estabeleceu um estreito relacionamento com a família Villoresi. No final dos anos 30, a “Casa Villoresi”, na Corso Vercelli, em Milão, era um local animado, aberto a todos os amigos e que oferecia jantares e bailes. Naquele animado círculo estavam duas lindas loiras, as irmãs Tavola. Maria Antonietta (“Mietta”) Tavola era muito amiga de Emílio, e ficara arrasada quando ele morreu. Durante uma das festas de Villoresi, Mietta foi apresentada ao novo sócio de Gigi, Alberto Ascari. Alberto ficou surpreso, quase ofendido pelo fato de que essa linda moça milanesa nunca tivesse ouvido falar de Antonio Ascari, seu amado pai piloto de corridas. Logo ela se deixou cativar.

A Familia Ascari: Alberto, Tonino, Mietta e Patrizia.

Maria Antonietta nos pits.

Mietta mais tarde lembrou: “Depois de um tempo em que nos conhecemos, ele veio uma noite e disse: ‘Vamos dançar!’ e eu vi com supresa que ele sabia dançar muito bemPassados alguns dias, eu lhe perguntei onde aprendera aqueles passos, e ele me confidenciou que tinha secretamente ido a uma escola de dança só para poder sair para dançar comigo, para me agradar! Imediatamente, nos apaixonamos. “ Os dois se casaram em 22 de Janeiro de 1942. Com Mieta, Alberto teve um casal de filhos – Tonino e Patrizia.

Durante a guerra, a agência de transportes Ascari-Villoresi sofreu uma boa dose de contratempos, enquanto Alberto e Gigi compartilhavam um slogan mágico: “Quando esta guerra acabar, voltemos às corridas!” Um dos desastres da empresa foi um carregamento de caminhões para Trípoli, que Gigi teve que conduzir por conta já que o apaixonado Alberto só pensava na companhia de Mietta e retornou assim que pôde a Milão. Pouco antes de o navio chegar ao porto de Trípoli, ele virou. Felizmente todos na água, incluindo Villoresi, estavam equipados com apitos de náufrago, levando ao mar uma orquestra de sopro que foi fundamental para o resgate…

Haviam incursões das tropas nazistas no território italiano à procura de jovens fortes para alistamento obrigatório e serviço na Guerra. Ascari se acostumou a passar longos períodos acampado com outros de sua idade numa floresta para escapar dessa “honraria”.

Piloto Relutante

No final da guerra, Alberto Ascari era um homem de negócios estabelecido, dedicando esforços para reerguer a antiga concessionária de carros da família. Ele pôs de lado as corridas porque, segundo disse, queria que sua mãe tivesse “uma velhice tão pacífica quanto possível”. Entusiástico apreciador da culinária de Mietta, Alberto assumiu o perfil arredondado que lhe valeu o amável apelido “Ciccio” (ou ‘Gordinho’). Ele era um tipo conhecido como ‘un uomo quadrato‘, mas no melhor sentido da palavra, na verdade significando que, ao se tornar um dedicado pai de família, ele finalmente poderia ser considerado um homem sensato e equilibrado. Sensato demais para voltar às corridas, mesmo como um passatempo como tinha sido para ele antes a guerra? Assim parecia.

23 de Maio de 1940: Alberto (esq.) preparando-se para a Traga Florio com sua Maserati 6CM 

Enquanto isso, o círculo de Luigi Villoresi havia voltado com a corda toda para as corridas, que recomeçaram a fervilhar logo que o ano de 1946 começou. Alberto ia aos eventos só para apoiar seu amigo e curtir como expectador. Mas no final daquele ano, ele não resistiu à tentação de sentar-se ao volante do Maser 4CL de Gigi e, em Nápoles, acelerou umas poucas voltas durante os treinos. “Ali “, disse Villoresi, “ficou imediatamente em evidência a sua capacidade inata de se tornar uma grande piloto.” As voltas rápidas chegaram facilmente. A isto, seguiu uma sessão de treinos “clandestina” em Monza. De novo, Ascari se deixava levar por aquele tentador encanto da velocidade.

E o mundo da velocidade não se esquecera de Alberto. Enquanto ainda relutava pra voltar às corridas, a Bianchi planejava um retorno estrondoso às provas motociclisticas e tinha no jovem Ascari a esperança de uma estrela. Mas conflitos internos acabaram com o projeto em 1947.

Logo no início daquele ano, Alberto Ascari recebeu um convite precioso. Ele foi escolhido para competir em uma série monomarca no Egito. Cada um dos 16 competidores pilotaria uma pequena Cisitalia D46, um carro monolugar de 1.100cc, num grid de carros idênticos. Três eventos foram agendados. O primeiro em 9 de março no rápido circuito de 1,5 km do Parque de El Gezirah, numa das quatro ilhas do rio Nilo, no coração do Cairo. Ascari foi convidado entre os motociclisti, em contraste com os piloti. Ele era, como de costume, “filho do inesquecível ás Antonio Ascari’ e aos 28 anos, era o mais jovem dos participantes.

                          Ascari no Cairo com Ghersi, Chiron, Duzio, Taruffi                              e outros participantes da Copa Cisitália.

Cisitalia D46

Dadas as estreitas circunstâncias da Itália do pós-guerra, este “Cisitalia Cruise” foi um evento glamuroso e exótico, financiado pelo chefe da Cisitalia, Piero Dusio. Dois tri-motor voaram com os pilotos e outros para o Cairo na manhã de 22 de fevereiro. Festejados pelo rei Farouk e a sociedade do Cairo, os pilotos percorreram as atrações em Gizé e em Alexandria, onde uma das outras duas corridas deveria ser realizada. Esse evento foi disputado em duas baterias de 25 voltas e uma final de 50 voltas. O experiente Franco Cortese venceu a primeira bateria. O segundo vencedor foi Piero Taruffi, que tinha feito muito dos testes de desenvolvimento da pequena Cisitalia. Atrás dele, Ascari, que facilmente se qualificou para a final. Na final, os dois vencedores, seguidos pelo Cisitalia do chefe Dusio, estavam à frente de Alberto. Taruffi na liderança, fez a volta mais rápida, mas logo depois abandonou. Ascari então começou a pressionar, passando Dusio e indo à caça do líder Cortese. Ele parecia ter chance, mas no final inexplicavelmente perdeu contato e terminou a 13 segundos do vencedor.

Foi a condução mais emocionante da corrida. “Sem contestar os méritos de Cortese e Taruffi“, publicou a L’Auto Italiana, “mas pelo final esmagador, o segundo lugar de Ascari teve decididamente o mérito de uma vitória.” Esse foi o fim tanto da calmaria na velhice da mãe Elisa quando da pacata vita di un uomo quadrato. 

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Se quiser ler já a segunda parte dessa história, ela está aqui .

 

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