História – A Última Foto de Ascari (4ª Parte)

Um Cavaleiro para o Cavallino

O ano é 1949. Para a temporada na Europa, Alberto Ascari podia muito bem contar com a opção de ocupar um assento em uma Alfetta 158. Em Monza, no outono anterior, Ingenieri Pasqualle Gallo, o chefe da Alfa, após ter detido longamente seus olhos por trás do grossos óculos em Ascari, acabou declarando: “Ele é um piloto que eu gostaria muito de ter“. Mas muito ocupada com seus novos modelos e desfalcada de pilotos após as mortes de Varzi, Wimille e com a grave doença que ceifaria a vida do Conde Trossi, a Alfa decidiu tirar um ano sabático naquele 1949. Maserati ainda era a aposta de antes, contando com equipes privadas e proprietários satisfeitos enquanto desenvolvia seu modelo de produção A6. De fato, a fábrica do tridente encerrou suas atividades em Modena de Fevereiro a Junho para reequipar as suas instalações.

 

Ferrari & Ascari.

É nesse ambiente que desponta pela primeiríssima vez uma promessa consistente no workshop de Enzo Ferrari. Nas mãos do elegante Sommer e do arrojado Farina, seus carros com 12 cilindros tinham mostrado um páreo impressionante, embora mais em matéria de potência que em dirigibilidade. Um novo e ambicioso F1 com turbo-compressor de dois estágios estava em construção para 1949, um carro que pedia pilotos altamente qualificados se era para se levar a sério a ameaça da Ferrari para um eventual retorno da Alfa Romeo. Seria Ascari um desses ases?

A conexão histórica era clara, como o antigo secretário Romolo Tavoni explicou: “Ferrari tinha sido um grande amigo do pai de Alberto. Além disso, sua entrada no departamento de competições da Alfa Romeo havia acontecido graças a Antonio e ele não tinha esquecido disso. Enzo também era amigo de Elisa, a viúva de Antonio, que estava bem ciente de que não podia resistir à ambição competitiva de seu filho. Ela costumava falar com Enzo nestes termos: ‘Ponha-o ao volante de um carro ruim, assim ele provavelmente se desencantará com as corridas e eu poderia me sentir mais em paz’ “.

A ligação entre Ascari-Ferrari não era segredo para quem estava fora paredes da fábrica em Maranello; já em 1947 o a imprensa italiana estava especulando que Ascari poderia pilotar um carro da Ferrari. Nas pistas, o diretor desportivo da Ferrari, Federico Giberti mantinha o olho no progresso do recém-chegado com o nome famoso. Olheiro naquele Tour da Sicília agourado por um gato preto em 1948, Giberti havia reportado à Ferrari que a condução de Ascari era “Perigosa, revelando uma impetuosidade excessiva e, por conseguinte, não conservando o equipamento mecânico, um traço necessário para longos circuitos deste tipo.” Nem mesmo Villoresi passou pelo seu crivo, sendo igualmente considerado despreparado para esse tipo de evento.

Mas depois de ver Alberto ganhar com o novo Maserati em San Remo, no entanto, Giberti estava pronto para retratar-se e encher o jovem Ascari de elogios, chamando a sua corrida de “ótima e consistente” e disse mais: “Ascari mereceu plenamente o seu sucesso“. Não escapou a sua vista que este era, antes de tudo, um sucesso com um bom carro de Grande Prêmio, o que mostrou que Ascari estava em ponto de bala para maiores conquistas. Depois do golpe de sorte que lhe deu a vitória em Pescara no mês de Agosto, Ascari recebeu uma oferta de emprego na Ferrari, mas temporizou ao dizer “Obrigado, mas não posso abandonar a Maserati, que tem sempre me ajudado.

Enzo Ferrari valorizara as habilidades de Ascari, mas sentiu que o piloto podia ser desses “bom demais cedo demais”, e receou que ele poderia não ser tão maleável como piloto quanto preferia. “Aquele garoto pensa muito de si“, retrucou a Felice Bonetto quando este veio recomendar Alberto. Mas ele respeitava o endosso de Bonetto. Nem a posição com Villoresi estava muito clara. Gigi achava que Ferrari havia sido desleal ao lidar com as consequências do acidente fatal de seu irmão Mimi durante o teste de uma Alfetta da Scuderia Ferrari em Monza. E agora estava claro que Ascari e Villoresi formavam um pacote.

Como amigo de todas as partes, Corrado Filippini desempenhou um papel fundamental na conciliação dos pilotos com o dono da equipe. Villoresi fez as pazes com a Ferrari. “É bem sabido que Alberto chegou a Maranello com seu grande amigo Villoresi, mas ele não precisou de nenhuma apresentação“, lembrou Romolo Tavoni. “Ferrari entendeu perfeitamente que Alberto era um talento em ascensão e apostou naquele cavalo sem nenhum sinal de preocupação. Atuando como agente de Ascari veio o jornalista Corrado Filippini, graças ao qual Alberto assinou um contrato real, detalhado e pontual, o primeiro contrato real que a Ferrari teve de assinar com um piloto depois de muitos anos de cartas simples ou acordos mais simples baseados em palavra e um aperto de mão: este é o carro, aquela é a corrida; dividimos meio-a-meio os ganhos com a largada e o valor em dinheiro do prêmio.

Ascari no GP da Itália em Monza, 1949.

Tanto Villoresi e Ascari foram cobertos por contratos assinados em 27 de maio, que garantiam aos pilotos um tratamento em pé de igualmente. Eles receberiam salários mensais de 100.000 liras e tinham direito a metade de todas as largadas e prêmios em dinheiro. “A partir de 1949 a Ferrari obviamente atribuía a Ascari uma maior estima do que Villoresi” disse Tavoni, “porque o primeiro não só era mais rápido, mas para o comendador ele aparecia como a melhor aposta tanto para o presente quanto para o futuro, enquanto Villoresi representava o passado. ” No setor de projetos também havia uma aposta semelhante entre os engenheiros: o consolidado Gioacchino Colombo e ao lado deste a promessa de Aurelio Lampredi, que se tornaria grande amigo de Alberto.

A nova equipe estreou numa corrida de F2 em Bari, no dia 12 de Junho de 1949. O circuito semifechado proporcionava a oportunidade de se testar os carros por dois dias antes do evento. Assim descobriu-se que a nova 166C atingia seu pico de rotação (6.800RPM) trezentos metros antes do fim da reta; tiveram que aumentar a taxa da relação de marchas a fim de dar ao potente V12 de dois litros um respiro. Em uma corrida longa o suficiente para exigir reabastecimento, Ascari assumiu a liderança a meia distância e venceu, estabelecendo um novo recorde de volta. Um debut para ninguém botar defeito.

Largada do GP de Bari de F2.

Ascari ainda daria para a Ferrari mais seis vitórias em corridas naquela temporada, incluindo os importantes triunfos no GP da Suiça (primeira vitória em Grandes Prêmios para uma máquina da Scuderia Ferrari), no International Trophy em Silverstone e o GP da Itália em Monza. Gigi levaria a vitória no GP da Holanda (graças a problemas enfrentados por Ascari) e no GP de Bruxelas. Nessa época já estava claro o quanto Alberto se destacava no ‘binômio’; um comentarista Rodney Walkerley, que se postou numa curva relativamente difícil de Zandvoort para observar melhor a condução dos pilotos, reportou que “Em matéria de pilotagem é fácil reconhecer que Ascari faz muito mais numa curva do que Villoresi, com uma máquina idêntica e na mesma velocidade, pode sonhar em fazer...”

Depois de meses de desenvolvimento, em Monza finalmente planejou-se a estreia daquele V12 Superalimentado da Ferrari – O GP49. O carro era uma “monstruosidade delicada” que exigia muito do piloto para entregar o que prometia. Lampredi declarou que “Até para tirá-lo da garagem o motor fervia.” Antes da corrida, Ascari tomou a precaução de encharcar em água seus sapatos de condução e sua touca de pano. “Eu gostaria de deixar registrado minha admiração peloe pilotagem de Ascari”, escreveu Rodney Walkerley, “sua maneira de levitar pelas curvas rápidas com uma facilidade prática e um timing perfeito foi uma lição memorável vinda de um piloto com tão breve experiência.” A imprensa italiana foi bem mais extravagante em seu louvor. A vitória permaneceu uma das mais queridas de Alberto e por boas razões: “Muitos pensaram que minha carreira foi facilitada pelo fato de meu pai ser um campeão. Mas em vez disso, era uma responsabilidade. Eu sabia quão bom meu pai era, e sentia que tinha que viver de acordo com sua reputação. Bem, durante essa corrida eu acreditei que o teria deixado feliz feliz se vencesse. Então eu fiz o meu melhor. E me senti digno dele quando eu ganhei.

Nesse ano, Ascari se tornou o Campeão Italiano, batendo seu mentor Gigi Villoresi e Giuseppe Farina.

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