História – A Vida de Jim Clark (Em Cinco Atos)

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INTRODUÇÃO

A definição da palavra mito tem uma forte carga mágica: é uma narrativa fantástica, sobre a maneira como se relacionam as divindades e os grandes heróis, um jeito brilhante de retratar nossa irrisória existência. Cada um dá o valor que quiser pra realidade de seu viver; contudo, parece bem interessante poder chamar o testemunho dos elementos da natureza e dos mistérios para evocar quão grandiosa pode ser a vida. Nossa vontade mais íntima é por um viver feérico (no dizer do Cristo uma “vida em abundância”), por isso as grandes empreitadas descritas na Bíblia, no Alcorão, no Gita, ou na mitologia de Homero estão cheias de elementos estranhos ao cotidiano, contando como uma atuação sobrenatural pode surgir do invisível e imediatamente aumentar até a última potência a possibilidade humana.

A maioria de nós jamais será como Aquiles, um herói digno de atravessar as eras através de um poema imortal. Mas é certo que tomar para exemplo àqueles de nós que conseguiram façanhas extraordinárias (ainda que não se creia numa intervenção divina) certamente desperta no fundo do peito o gosto pelas aventuras, o desejo de absorver uma vivência além de nossos limites. Sendo assim, lhe convido a vir comigo até lugares onde alguns foram, pra vivenciar o que poucos fizeram.

Senhor do tempo em Spa, 1965.

 

Fosse nos tempos da antiga Grécia, a vida de James Clark Jr. certamente seria contada com as tintas vibrantes de um conto fantástico; pois ascender de um simples pastor de ovelhas numa fazenda escocesa até se tornar um domador de incontáveis cavalos, com admirável sucesso na arena do perigoso automobilismo dos anos 60, não são as crônicas de um qualquer. A passagem de Clark nesse mundo, tanto sua vida quanto sua celebridade, são apaixonantes nessa medida.

Ele foi um autêntico filho do vento. Não havia nada de arrogante quando ele dizia: “Não entendo porque os outros são tão lentos!…” Viveu como poucos a fusão entre homem e máquina. E enquanto sua aptidão técnica o levava rumo à Perfeição, gentilmente acreditava que não havia nada de tão extraordinário naquilo que gostava de fazer – a ponto de mal perceber que o fazia como ninguém. Foi um verdadeiro discípulo de Fangio e seguiu à risca aquela máxima do Maestro argentino: “Seja o melhor sem jamais pensar que é o melhor”. Na verdade, Jimmy lutou muito contra o reconhecimento de sua própria superioridade. Mas no fim de sua vida, já não era estranho que ele reconhecesse o inegável. Conta-se que, naquele domingo chuvoso de 7 de Abril de 1968, na constatação de que seu bólide não estava à altura de uma boa corrida em Hockenheim, às últimas palavras que alguém ouviu sair de sua boca foram: “Não espere que eu esteja na posição de sempre.

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ATO I

Jimmy, o bem-educado filho de uma comunidade rural ao Sul da Escócia…

… nunca perdeu inteiramente a ingenuidade de garoto da fazenda.

Analisar a trajetória do grande bicampeão mundial de Fórmula 1, desde suas origens até o acidente fatal é um inegável crescendo – partimos do bucólico, ao som de Vivaldi em ‘A Manhã de Peer Gynt’ para concluirmos sob o estrondo dramático de ‘Carmina Burana’ o que foi a vida de Jim Clark. É notável como ele, à sua maneira quieta de ser, sempre escolheu o que era grandioso. Quando o jovem bem-educado, nascido caçula de uma família com quatro moças já adultas fugia da fazenda em meio às tarefas exigidas pelo rebanho de ovelhas de seu pai para se encontrar com o amigo Scott-Watson (e seu DKW cupê) e ir para as reuniões do clube local de automobilistas, era o Destino olhando de esguelha para um menino tímido, e ainda um pouco longe da intenção de querer pôr aquele menino em evidência. Quando ele assumiu o volante pela primeira vez numa pista de corridas (aos vinte anos no carro cedido por Watson), fazendo sem muito esforço um tempo três segundos melhor que seu experiente amigo, quem sabe, algo nos bastidores celestiais tenha ressoado… Que arranjos ocultos não devem ter sido orquestrados pela Providência quando o jovem se viu em dificuldades de convencer os pais sobre seus planos de se tornar um piloto de corridas? E seu encontro com Colin Chapman, consolidado em Le Mans-1959, quando o futuro mago do design automotivo viu aquele quieto rapaz dirigir com raro estilo um de seus Lotus Elite até a décima colocação na tabela geral de uma prestigiada corrida de 24 horas?  Percebemos um ininterrupto lance de dados na feitura dos dias desse jovem especial.

Talvez, quem melhor captou o apreço de Jimmy pelas corridas de carro tenha sido o repórter Graham Gauld, seu conterrâneo e amigo íntimo, que em certa corrida estava postado numa curva a meio circuito do pitlane para melhor fotografar os carros. Após o final da prova, durante a volta de honra, Graham deu um sinal a Jim para que este lhe desse uma carona de volta aos boxes em seu Lotus Cortina. Jimmy, cortês, parou e abriu a porta, mas assim que o amigo entrou no habitáculo começou imediatamente a pisar fundo. Ao se aproximar de uma curva crítica, sem aliviar, Jimmy gritou: “Olha isso!…” e num arrepiante contra-esterço manteve na pista um carro rente ao limite. E com um sorriso sonhador concluiu: “Meu Deus!!… Não é maravilhoso??…” Certamente, esse é um retrato fiel da pureza infantil com que Jim Clark se entregava ao prazer de pilotar.

… antes de estrear na F1 na Holanda, em 1960.

O DKW Cupê de seu amigo Ian Scott-Watson, com o qual começou a correr…

Essa entrega o recompensou relativamente rápido. Em cerca de quatros anos subiu a partir das corridas de clube até chegar ao calíbre das disputas com os mais requisitados profissionais. E precocemente, em 6 de Junho de 1960 ele atinge o primeiro apogeu da escalada que fortuitamente havia escolhido desbravar, tendo sido recrutado para a linha de frente na mais alta roda do automobilismo. Era o GP da Holanda, seu primeiro Grande Prêmio. Quando consegue o 11º lugar no grid de Zandvoort, ninguém poderia supor que ele estava aprendendo a fazer História. Mas quando poucas voltas depois ele passa em 4º pela reta dos boxes (posição que manteria por mais de 30 voltas), nem o comentarista mais desatento perderia de vista que aquilo era sim uma façanha rara.

O alvorecer da equipe Lotus em 1960 – Colin Chapman, Innes Ireland, Jim Clark e Alan Stacey

Podemos meramente imaginar o que deve ter sido voltar aos boxes antes do fim da corrida por causa de um problema na caixa de marchas. Para um batismo de fogo entre grandes cobras, ele havia se arranjado pra lá das melhores expectativas. E havia um prospecto promissor para o futuro junto do também extraordinário Chapman dentro da ainda pequena equipe Lotus. Mas uma significativa mudança de ventos parece ocorrer, enquanto Jim se prepara para o seu segundo Grande Prêmio dali a quinze dias, no infame circuito de Spa-Francorchamps na Bélgica. Certo barulho de trovões ressoa de longe.

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Ato II

O jovem piloto de 24 anos não pôde começar a sua escalada sem um claro aviso dos perigos que a empreitada escondia. Jim Clark já havia acelerado em Spa (numa corrida de Gran-Turismo em 1958) e naquela ocasião seu coração já fora resvalado pelos vivos tons de uma glória rodeada de tragédia: conhecera ali um muito bem falado conterrâneo seu chamado Archie Scott-Brown, que a despeito de ter nascido com uma particularidade desfavorável ao triunfo (tinha uma má formação congênita de um dos braços e das pernas), era um piloto de corridas excelente. Jim ficara impressionado com o talento e a acessibilidade no caráter de Brown. Mas na prova, disputando a liderança, Archie encontra uma poça numa curva de altíssima velocidade, e sai da pista pra encontrar sua morte.

Clark & Stacey em Spa, 1960.

Dois anos depois, naquele mesmo lugar, um outro aviso é dado a Jim, forte como um barítono, e fere fundo: lidando com o medo de controlar pela primeira vez um monoposto de corridas num traçado de altíssima velocidade, não consegue se sentir a vontade dentro do carro e conclui (felizmente inteiro) uma corrida que definiria mais tarde como “A Mais Amedrontadora de Sua Vida”. Ao descer do carro, não tem tempo de comemorar seus primeiros pontos na categoria; descobre que o evento havia trazido mais duas baixas para o circo – dois talentosos pilotos ingleses, um dos quais se chamava Alan Stacey e era seu companheiro na equipe Lotus. A partir daí, a singela pastoral do menino cuidador de ovelhas que agora domava cavalos-potência, jamais deixou de cismar com o Terrível que havia nessa odisseia. E como se não bastasse a força intimidante dessa primeira exortação, não demora muito e os assombros do perigo são brutalmente rememorados – ou pior,  ressaltados – num episódio ainda mais grave, dessa vez colocando o afável pastor escocês como protagonista direto de uma imensa tragédia.

Von Trips, Clark e Moss lado a lado no briefing de Monza, 1961. Pouco depois dessa foto, o escocês se veria no epicentro de um desastre.

Ao chegar na altura de sua primeira temporada completa – 1961 –, Jim Clark paga bem caro por ter resolvido desbravar a fundo os ventos que trouxeram aquele primeiro aviso em Spa. Em Setembro, ao alinhar pela primeira vez no templo de Monza para o GP da Itália, o Destino o põe em rota de colisão com outra estrela em ascensão: o Conde Von Trips, nome forte sob o brasão imponente do vermelho Ferrari. Naqueles dias o Conde parecia outro destinado a gravar seu nome no rol dos grandes vencedores. Ganhasse naquela tarde em Monza, se sagraria o primeiro campeão do mundo pela Alemanha. Porém, assim como Ícaro, Von Trips não se precaveu dos riscos de se voar perto demais do sol… Afoito pela dianteira, já na segunda volta tenta, na célebre curva Parabólica, uma manobra um tanto inconsequente sobre o jovem escocês; os dois carros se tocam arremessando a Ferrari sobre o público, deixando à beira da pista mais de uma dezena de corpos sem vida – incluindo o do Conde alemão. Quanto Clark se ergue atônito no meio daquela cena, é considerado o suspeito de ter causado a tragédia.

Para ele, já não poderia mais ser o brilho de uma juventude inocente a mover seu espírito aos píncaros da Glória. Contudo, nunca perdeu a ternura – e nada o demoveu da trajetória.

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ATO III

O fazendeiro em meio ao seu rebanho.

O ás a bordo de sua máquina.

Para lidar com o peso desse novo e trágico desenrolar que se abateu sobre sua inocente paixão, volta à fazenda de seu pai e redescobre, com grato alívio, o amor pelo pastoreio. Saindo da efervescência daquela arena de carros fantásticos e seus domadores, indo pra calma companhia de seus parentes e amigos e no cuidado com suas ovelhas, aprende a ponderar seu equilíbrio, a compassar melhor sua marcha em direção ao Olimpo.

Essa ânsia de quietude o leva mais fundo no amor e no cuidado com sua missão. Seu estilo ao volante testemunha essa imersão, no trato que tem com a máquina, a maneira como acaricia o bólide pelas curvas e o jogo leal que propõe aos seus adversários. Quem observasse sua condução poderia até se sentir entediado pela maneira tranquila com que operava o carro, tamanha calma e exatidão de seus movimentos. Mas ficava claro o quanto o menino ingênuo havia aprimorado sua arte e o quanto era tempo de fazer-se destacado entre todos os Titãs. É nesse tempo que seu mestre-artífice Chapman faz para ele uma máquina brilhante, que apesar de um pouco refinada demais (do tipo que tolera pouco muito do que se consideraria natural), é o suficiente para que o jovem e comportado Clark crescesse a ponto de começar a se impor sobre os demais.

Bélgica, 17 de Junho de 1962. Jim Clark alinha num discreto 12º no grid de largada daquele temível Spa-Francorchamps, circuito que na verdade detestava. Aquele exagero de retas e curvas velocíssimas em meio a lindas paisagens de campo que passavam impercebidas na vertigem do vento, era o que ele menos prezava a bordo de um carro de corridas. Preferia circuitos em que o piloto se fazia tão presente quanto o motor, como Mônaco ou Zandvoort, com curvas para sentir a máquina e dialogar com ela mais de perto. Mas, com o estrondo da largada, Clark procura esvaecer seus receios e se põe na tarefa de amansar seus cavalos de modo a suavizar o enorme desafio daquela estrada.

Clark (esq.) na batalha pela liderança em Spa, 1962.

No final da primeira volta já está em 4º e começa um embate épico, com quatro notáveis adversários imediatamente em redor (seu amigo e grande rival Graham Hill, o valente herói local Willy Mairesse – recrutado da Ferrari –, seu companheiro de equipe Trevor Taylor e Bruce McLaren, outro de seus grandes camaradas vencedores). Essa batalha de nervos dura até a 8º volta, quando Clark assume a ponta e encontra brecha para construir sua vantagem. Só na volta 27 houve algo a estremecer sua sorte: ver o carro de seu parceiro Trevor Taylor destroçado ao lado de um poste e de uma máquina vermelha em chamas. O inglês havia se metido num exuberante embate com o bravo belga Mairesse e um desastroso contato foi inevitável. Mas com a constatação de que nenhuma tragédia tinha acontecido nesse evento, Clark teve caminho aberto para continuar abrindo rumo ao triunfo.

Spa-62: a primeira vez no alto do pódio, com Graham e Phil Hill.

Começava aí, sua (quase) imparável escalada às maiores alturas. Clark iria se impor naquele solo de guerra de Spa ainda por mais três anos consecutivos.

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ATO IV

O jovem se vê na crista da onda. Dois campeonatos mundiais são avassaladoramente colhidos em seu ritmo. Colecionando triunfos, poles e voltas mais rápidas, não há quem negue que seu talento está demarcando novos parâmetros para o conceito do gênio. E todos se perguntam como alguém tão sereno e tão fino de modos, consegue demonstrar tamanho ímpeto e pleitear essas vitórias. Na intensa batalha dessa arena, só mesmo Jim Clark consegue, sem perder a doçura, arrebatar conquistas dignas do mais feroz dos leões.

Jim & Sally em Indianápolis, 1965

Em plena ascensão conhece uma bela chamada Sally. Desbravar essa aventura é sempre mais idílico com a companhia de alguém assim tão bonito e começa uma estação realmente mágica na vida do jovem pastor e domador de cavalos. Sally é efervescente mas sabe apreciar o trato gentil e um tanto vacilante daquele tímido menino. Os dois viajam o mundo na esteira do circo. E a sequência impressionante de triunfos continua e uma adulação de multidões começa a enaltecê-lo alto, muito alto. Ainda assim, seu espírito sabe se sobrepôr à balbúrdia e ver com clareza por sobre todo aquele caos. Nada para ele vale mais do que a calma de se sentir senhor sobre o ruído, seja de um motor rugindo ou de uma turba em transe.

A conquista do mundo é assentada em 1965, ano em que ele vence aquela que é desde sempre considerada a maior prova do automobilismo mundial: as 500 Milhas de Indianápolis. Na sua terceira tentativa, depois de lidar com muita frustração e dar mostras convincentes de sua preeminência e ingenuidade, Jim Clark ganhou o coração dos americanos com seu gentil carisma e sua velocidade. Sally hoje recorda: “Ele venceu a corrida com uma vantagem de duas voltas inteiras!… E muita gente não reportou isso na época. Ele voou! E eles enlouqueceram ao ver que ele venceu como um cavalheiro.

Ele mais tarde reportou a corrida em seus escritos pessoais: “Fiz uma boa largada e era o primeiro na Curva 1 – o que depois me disseram ser a primeira vez no Speedway… mas isso é só mais uma daquelas estatísticas que as pessoas fazem muito caso… não penso que isso signifique tanto. Na segunda volta, Foyt estava bem atrás de mim e eu o vi pôr por fora pra me ultrapassar; deixei ele ir. Mas rapidamente ele diminuiu, e apesar d’eu não querer que ele fosse mais rápido que eu, também não queria que ele fosse mais lento, mas o passei e segurei a ponta daí em diante. Muitos me perguntam quando eu pensei que a corrida estava ganha e minha resposta é sempre ‘Umas 100 jardas da bandeira quadriculada!’ Acho que me senti realmente bem confiante depois da minha primeira parada no pit. Quando voltei pra pista estava lado a lado com Parnelli Jones, sem saber se ele já tinha parado ou se estava uma volta à minha frente. Eu acelerei e o passei pra duas voltas depois ver na placa “MAIS 58 PARNELLI”. Lembro de ter pensado “Isso é bom!” pois mesmo correndo juntos, ele estava uma volta atrás de mim na pista. De repente me vi chegando rápido num outro carro que só reconheci quando vi o número na lateral – era Foyt. Ele havia acabado de sair do pit e quando viu que estávamos para ultrapassá-lo, enfiou o pé. Eu deixei ele me repassar e pouco depois a placa me dizia ” MAIS 58 MAIS 58; eu estava agora uma volta na frente dos dois. (…) Enquanto escrevo estas palavras se passaram três semanas desde Indianápolis e só agora começo a perceber que na verdade venci a corrida. Eu me lembro da multidão vibrando e das entrevistas – Oh, as entrevistas! – e claro, aquele falatório todo da enorme quantia de dinheiro que parece que eu ganhei. Até agora eu não faço ideia do que ganhei mas eu sei que não é nada assim parecido com o que essa gente diz.”  

Quatro anos fluem no durar dessa primavera.

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ATO V

 

Com a glória veio fama e com a fama, o poder. E com o poder o Fisco a tentar fatiar e levar a maior parte do espólio que Clark havia conquistado. Com a ameaça a sondar-lhe a casa, o rapaz se vê obrigado ao degredo – não mais voltar à casa paterna e o pastoreio entre uma corrida e outra. Não mais ter aquele bocado de paz necessária para ouvir a calmaria cantar coisas belas acima do tumulto. Coincidentemente, a passagem de Sally em sua vida chega ao fim. E vemos parte de sua inocência ceder sob o jugo dessa pressão de todos os elementos que já tinham começado a se espremer em volta de si. Ele por vezes soa amargurado. Contudo, a pureza de sua arte permanece intacta e como que a compensar-lhe as dores, surge os grandiosos lampejos de um verdadeiro mestre na obra de Jim Clark.

Zandvoort, 1967, estreia com a Lotus 49

Quando volta a Zandvoort para o GP da Holanda em 4 de Junho de 1967, apresentam-lhe pela primeira vez um bólide especial, uma maravilha mecânica tão bonita de se ver, e tão maravilhosamente veloz… Um animal novo para Clark domar. O degredo havia tirado dele a alegria de conhecer profundamente e desde a origem aquele novo ser, não vira aquela obra tão bem acabada ser feita e experimentada pela primeira vez; seu vaidoso parceiro Graham Hill já havia conseguido, quem sabe, uma preferência e alguma vantagem na conquista do novo carro.

Mas Jim não era mero piloto – era um encantador de carros, conseguia como ninguém aplicar uma hipnose sobre a máquina, fazê-la dar o que jamais dera. E quando a bandeira quadriculada cai e o novo carro vence, é Jim Clark quem está ao volante. Mas a nova máquina é outra que sofre de uma compleição frágil e se consegue uma performance muito acima dos demais, também é esmigalhando sua própria resistência física no processo. Jim de novo tem uma máquina rápida, porém frágil e inconstante. E seguidas vezes ele se vê obrigado a desistir depois de uma estrondosa mostra de velocidade e brio.

Jim Clark, na tribuna em Zandvoort, 1967.

Para o GP da Itália em 10 de Setembro daquele ano, Monza ardia em calor. Clark precisa vencer a corrida pra se segurar nas chances de um total triunfo na temporada. Naquela altura, sua máquina verde-escura parecia ter aprendido a dosar melhor sua resistência e os olhos do impecável escocês buscavam, como sempre, a calma da dianteira, quando enfim poderia operar aquela trotada suave e aliciante, capaz de abrir um mundo entre seu comando e a inútil perseguição dos demais.

Na épica corrida em Monza, 1967.

Quando uma largada dissonante dá lugar à corrida, Clark está no corpo a corpo com o pelotão do meio. Seu avanço é, contudo, uma força da natureza – como o assalto à praia de Tróia. Ninguém poderia pará-lo. Nosso herói, porém, tem um calcanhar mal protegido e o Acaso lhe acerta uma seta de raspão, ferindo seu pneu. Quando se levanta pra recuperar o fôlego perdido, tem um atraso impossível de reaver. Mas as Musas vêm ao seu encontro e o tocam com olhar abrasador, que lhe acende. Ele busca o ponto capaz de apagar essa pressa, e alcança uma dimensão impossível para a maioria de nós. Perto (muito perto!) de concluir da luta, com mais um golpe certeiro Jimmy recupera a dianteira e marcha como que em transe em direção à vitória…

(…)

Conclusão da sua corrida em Monza-67.A cena apaga. Já no quarto de hotel vemos Jim sentado, combalido, a olhar o chão, ponderando o acontecido. Quem pode avaliar o peso de, mesmo depois de passar as raias da Perfeição, ter que descobrir, com a meta bem ali à vista, que suas forças se desmancharam sem aviso e que ele agora experimentará a derrota? Com um defeito na bomba de combustível e uma pane seca, seu carro novamente o deixou na mão. Enquanto lentamente se arrasta pela pista e vê outro herdar o que sem dúvida só ele merecia, a procurar por aquela calma ele só quer sair de cena silenciosamente, quedar no seu desconsolo enquanto não vem aquele difícil alívio pra imensa frustração que sente.

Mas algo o ímpede: a multidão, arrebatada pela magnífica mostra de força que ele deu antes de sua máquina ceder, se arremete conta ele, o arranca do carro e o carrega em triunfo. Foi a primeira e única vez na Formula 1 que alguém que perdeu a corrida foi estrondosamente ovacionado como vencedor.

Como piloto, Jim Clark foi avassalador e deixou mais que provado que seu dominio só não foi incontestável nos anos 60 por conta das muitas deficiências mostradas no desenvolvimento das máquinas que pilotou. Colin Chapman, em sua busca pela feitura da máquina perfeita, tinha a conduta minimalista ao conceber suas máquinas, manifestando na prancheta o refrão de quem pensava  que o grande inimigo da velocidade num carro d corridas era o seu peso, e na tentativa de relaxar esse peso abusava do engenho criando máquinas velozes e frágeis. Com isso em vista, a despeito do fato de que essa parceria entre Clark e Chapman tenha rendido bem mais do que vitórias – já que entre eles nasceu uma sólida amizade –, chega a ser também trágico que Clark tenha sido fiel à equipe Lotus durante toda a sua carreira, confiando cegamente em Chapman no que dizia respeito à construção de um carro. Logo se teria melhor dimensão do pra quanto de melhor e pior essa parceria existiu.

Contudo, a partir desse agridoce desfecho em Monza, o acerto definitivo parecia estar combinado entre todas as partes. Inscrito no campeonato Tasman na Oceania, não deixou pra ninguém. E na F1, o escocês começa uma nova ascensão, bem conforme seu gosto: largando na frente e construindo uma liderança cada vez mais sólida até vencer nos três Grandes Prêmios seguintes que disputou – nos Estados Unidos e no México em 1967 e na Africa do Sul em ’68.

O que ninguém imaginava, era que aqueles também seriam os últimos três GP’s de sua vida.

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Kyalami, sua última vitória em um GP. Nesse dia, Clark quebrava o recorde de vitórias na F1 do pentacampeão Fangio.

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Não muito depois disso, chegamos a Hockenheim.

Jim Clark em Hockenheim, 1968.

Certamente podemos verificar algum grau de presságio vindo sobre a conclusão do destino desse jovem ás de 32 anos. Existe, até hoje, entre seus pares e amigos mais íntimos uma constatação firme de que seu coração aos poucos tinha desviado do apelo das corridas, como se o tempo passado e a constante proximidade com o perigo já não lhe permitisse a graça infantil que primeiro o impeliu ao esporte e assim, o gosto que o mantinha fascinado pelo automobilismo já não fosse mais o bastante para mantê-lo vivaz na disputa. Ele realmente estava cansando daquilo e os parentes são unânimes em acreditar que Jim planejava fazer daquele ano de 1968 o último de sua carreira. Buscaria, como sempre, continuar vencendo, enquanto aguardava serenamente a conclusão da temporada pra finalmente poder entregar-se de uma vez por todas ao sossego de sua pastoral.

E abruptamente, o Tempo toma o rumo do impossível.

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Com Kurt Ahrens e seu mecânico Dave Sims.

Quando Clark desce da Mercedes de Kurt Ahrens na madrugada daquele 7 de Abril, prestes a dormir no Hotel Luxhof a última noite de sua vida, nada nas suas maneiras indicava a dramática guinada que o destino daria na 5ª volta da corrida que haveria no autódromo mais próximo dali. Tanto é que pouquíssimos percebem a infelicidade de Jim naqueles dias, que o desagradava muito estar em Hockenheim para aquela corrida. O circuito, apesar de exuberante, era terrivelmente ruim para o artista que ele era, ainda pior que Spa – uma quantidade abusiva de retas em meio a um massivo conglomerado de árvores altas… Para piorar, seu carro não parecia muito afim de papo naqueles dias.

Mas quem, além dele, poderia supor essa adversidade? Quem subia aqueles degraus até sua cama era o recordista de vitórias e poles em Grandes Prêmios, o atual líder em pontos do Mundial em curso, vencedor e sempre um dos favoritos nas 500 Milhas de Indianápolis, o nome reconhecido desde a América até a Austrália por sua incrível habilidade com carros de corrida de todos os tipos. Era considerado o maior entre os maiores artistas do volante no mundo inteiro, reconhecido como alguém de tocada impecável e uma finesse muito difícil de ser imitada ao comandar um bólide em alta velocidade. O seu jeito cortês também era igualmente bem notado mundo afora. Querido por todos, era correto afirmar que a maioria dos postados nas arquibancadas daquele dia de Hockenheim, viria só para vê-lo.

Ao despertar, abre as cortinas e se depara com a chuva através da janela do quarto… Certamente um arranjo a mais a lhe complicar o dia. E ele, tão absorvido por uma natural certeza de sua missão, alheio ao aviso das musas que intercedem e choram por ele, se apronta, apanha a bolsa com seu fato, seu capacete e óculos e sai.

(…)

Dave Sims testemunha as últimas palavras de Clark.

Ao cair a tarde seria dada a largada naquele asfalto molhado. Poucos sabem que Jim Clark mal considera a possibilidade de uma corrida completa, quanto mais uma vitória. Dave “Beaky” Sims era seu mecânico na ocasião e lidava com Jimmy e o sério problema de dirigibilidade de seu Lotus 48. O carro não se comportava na pista, estava arredio, inquieto nas mãos do persuasivo pastor. Parecia que algo estava insistentemente torto no acerto do bólide, e os dois, piloto e mecânico, lutaram durante todo o fim de semana para encontrar uma combinação de ajustes que surtisse um efeito minimamente desejado.

No grid, a poucos minutos da partida, Beaky ouve Jim numa queixa resignada: “Não espere me ver na posição de sempre. Eu não confio nesses pneus. Não consigo nenhum grip com eles, não consigo nem aquecê-los…

(…)

Largada.

E lá vai ele, entre a névoa da Floresta Negra e o spray dos carros em redor, fazer o que ele sabe melhor que ninguém, no que certamente só parecia uma corrida um tanto amarga. Ainda assim, na luta pra domar aquele elemento indócil, brilha a pureza de seu amor pela máquina, e graça a alegria e o prazer de sentir-se apto a persuadir cavalos raivosos e meio feridos a levá-lo colina acima… e o Senhor do Destino está prestes a contemplar os últimos arquejos do seu menino tranquilo.

(…)

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Hark, now hear the sailors cry

Feel the sea and touch the sky

Let your soul and spirit fly

As we sailing into the mystic

VAN MORRISON

 

(…)

Quando minutos depois seu corpo expira dentro de uma ambulância, ninguém poderia supor que Jim Clark era como esses a quem a morte apanha com a mesma facilidade dos demais. Aquele pastor de ovelhas era gentil demais, e grandioso demais ao domar seus cavalos para que cedesse assim, violentamente, numa pista. Chris Amon resumiria esse raciocínio ao dizer: “Se Jimmy pôde morrer num carro de corrida, então nenhum de nós está a salvo.” Muitos aqui, como eu, nem eram nascidos quando essa história foi contada pela primeira vez… e ainda assim, podemos sentir a emoção desta breve estadia por essas terras e a dor de seu trágico fim. Enquanto seu espírito se eleva à calmaria final, diante do olhar atônito da multidão incontável de admiradores que deixou nesse mundo, podemos supor que uma boa parte da própria Inocência morreu com ele.

***

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