O Destino de Luigi Musso – Origens

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Influências Escusas

Entre os fãs brasileiros da Formula 1, muito se fala a respeito da falta de credibilidade nas disputas atuais. No meio de uma multidão de vozes descontentes com o espetáculo oferecido nas pistas hoje, as opiniões divergem entre uma ponderada pequena parcela que enumera, como causas de um fiasco nas corridas, tanto a própria evolução do esporte enquanto negócio quanto as muitas questões políticas que essa mesma evolução trouxe e hoje fazem parte intrínseca do esporte; já outros, insistem numa magrela constatação de que simplesmente a competição nas antigas era melhor pelo ronco do motor, ou pelas ultrapassagens, ou ainda por um piloto A ou B que, independente dos interesses que moviam o circo, por sua simples presença fazia sozinho o show acontecer. Nisso, é impressionante a quantidade de expectadores desavisados que perpetuam uma linha de raciocínio parcial ao dizer que houve “num certo antigamente” uma disputa inteiramente fiável, limpa, decidida somente pelos pilotos e carros, sem tantas jogadas desleais fazendo parte do enredo e insultando a pureza da competição. Sim, porque (dirão tais “comentaristas”) é inimaginável no tempo de Fangio, de Clark ou de Stewart uma vergonha tão grande como àquela da bandeirada no GP da Áustria de 2002 ou a do caso de Singapura-2008 em que Don Briatore orquestrou uma maracutaia tão vergonhosa que quase acabou com a carreira do promissor filho do tricampeão Nelson Piquet. Esses são sim casos notórios a manchar a insuspeição da atual F1. Mais recentemente Toto Wolff pôs mais lenha nessa fogueira ao baixar a bola de Bottas em favor de Hamilton. Para muitos, é duro aceitar a vigência desse jogo de equipe a determinar quem vence e quem abre pra outro passar. Por isso, tem gente de opinião barulhenta a pôr em cheque todo o crédito da F1 de hoje. Só que é ingênuo pensar que houve no automobilismo um passado radioso, a prova de falcatruas ou desses odiosos “jeitinhos” de se criar um resultado artificialmente.

Banal é a expressão “A história se repete”… mas ela é bem certeira em todas as instâncias da vida, inclusive no esporte a motor.  É bem antiga a controvérsia sobre a existência de um acentuado grau de manipulação no mundo dos Grandes Prêmios. E quando analisamos a evolução do automobilismo podemos nos surpreender ao nos depararmos com adiposidades históricas ainda mais graves, fatos causados por um comportamento traiçoeiro por parte de quem promove o esporte, com interferências polêmicas e anti-esportivas que, inclusive, determinaram que tragédias acontecessem.

Domingo, 29 de Junho de 1958: Luigi Musso na Corrida dos Dois Mundos em “Monzanápolis” (29/06/1958). Começava nesse dia a sua última semana de vida.

O Dom de Musso e a Política Ferrarista

Tal é o caso das circunstâncias em torno da morte do italiano Luigi Musso, ambicioso piloto que foi uma das estrelas da F1 nos anos 50. Dentre os ases da luminar Scuderia Primavera (a casta de volantes selecionados a dedo por Enzo Ferrari na segunda metade daquela década), Musso sempre foi o mais fogoso, e o que mais relutava em acatar ordens – o que certamente o pôs num terreno bastante arenoso no que dizia respeito à afeição que il Commendatore pudesse sentir por seus pilotos. Apesar disso, parecia que o piloto romano tinha aquele impalpável que cativava o Capo Italiano, a ponto de conseguir o raro benefício de poder se julgar um titular constante nas máquinas vermelhas de Modena, tanto na F1 quanto no Mundial de Marcas com carros esporte –  fato notável tendo em vista que Ferrari gostava de ter mais pilotos do que carros disponíveis.

Iniciado seus trabalhos nos Grandes Prêmios mostrando o que sabia a bordo de uma Maserati 250F, com a alegria (sempre dúbia) de ter sido recrutado por Ferrari, Musso acreditava-se na crista da onda e teve muito o que viver no período de seus 15 GP’s oficiais dentro da Scuderia pra exercitar e pôr a prova sua estrela. Não conseguiu, é verdade, nada muito estrondoso. Mas a analisar pela sua galhardia, parece que se julgava vivendo sob o fulgor de uma estrela forte, pensando mesmo ser um predestinado.

Musso no GP da Inglaterra de 1955 com a Maserati 250F

Tal atitude de autoconfiança, muito bem-vinda em um talento emergente (como era o caso de Musso), estava no entanto destinada a sofregar num terreno pantanoso assim que entrasse num domínio de fortes vontades em jogo – como era, sem dúvida, o caso da atmosfera em Modena, onde Enzo Ferrari, com seu magnetismo desordeiro, não só submetia cada um de seus empregados a uma dieta de trabalho sacrificial como exigia, na busca pelo sucesso, a instauração sorrateira e implacável de um ambiente bastante incômodo para todos que quisessem trabalhar para ele. A mensagem era clara: ou você dá seu tudo pela glória da Ferrari ou você não merece estar na Ferrari. Ele primava por uma guerra-fria em sua própria casa, exercendo um comando que promovia um tácito (porém grande) tumulto. E ao tratar com seus pilotos (‘che gente!‘), Don Enzo dilatava tal situação até o extremo mais perigoso. Valendo-se do imenso carisma que exercia, sobmetia os condutores a uma pressão constante através da qual ele os mantinha inteiramente leais à causa da Rossa. O Comendador também sentia prazer ao exacerbar rivalidades entre seus pilotos, crendo que assim cada um daria completamente tudo de si pela glória Del Cavallino.

Porém, malgrado os intentos (digamos…) “malignos” do Comendador, houve entre seus pilotos um elemento grandioso que, além do imenso talento, gozava de tão bondosa e contagiante aura, que nem os aguilhões orquestrados pelo malicioso Capo tinham efeito no sentido de elegê-lo um possível inimigo para os demais – esse piloto se chamava Juan Manuel Fangio. Tricampeão na altura em que foi para a Ferrari (estamos em fins de 1955), Fangio era um esportista na essência da palavra, que subjugava os rivais serenamente, a ponto de, no mais das vezes, convencer quem foi vencido de que, ao perder para Fangio, o perdedor é na verdade um privilegiado.

Fangio & Ferrari.

Mas mesmo com toda a sua classe e sem jamais apelar a desinteligências, ao final de um ano Fangio sairia da Ferrari farto do Comendador. Sim, o plácido Maestro não poderia mais tolerar a maneira como Ferrari comandava a organização, com aquela desarmonia reinante, e não poderia mais fazer parte da entidade de um tirano que elaborava de maneira amoral o sucesso da marca nas pistas de corrida. Fangio admirava Ferrari grandemente, pelo amor intenso que este tinha pelas suas máquinas e com que arte as construía, moldando-as com estreme cuidado; mas desiludia-o doloridamente o desprezo que Ferrari nutria pelo ser humano. Já Musso parecia ser do tipo que gostasse da maneira com que Ferrari entendia as coisas… e sem perceber, se deixou engolfar por isso. É provável que sua grande autoconfiança tenha lhe cegado para o fato de que ele próprio era, sem dúvida, um dos sujeitos a faiscar mais quando as exigências de ser um piloto da Ferrari realmente se evidenciassem.

Quando a Primavera de Modena caminhava para o seu auge, todos os pilotos da casa, por reverência, se rendiam com prazer à magestade de Fangio – todos, menos Musso. Eleito naturalmente figura de centro na equipe, o mestre argentino, acessível como ele só, distribuía bons conselhos a seus protegidos com toda a paternidade que lhe cabia; e muito nos mostra do caráter de Musso o fato de que ele era um dos poucos que se fazia de surdo ao ensino de Fangio, ouvindo apenas o que lhe convinha, no como ter um carro acertado ou como atacar determinada curva, mas quando dizia respeito à sua própria postura como piloto, Luigi queria manter as coisas do seu jeito. O grande jornalista e escritor Alan Henry (1947–2016) foi categórico quando declarou “Ao contrário de Moss, Luigi Musso sempre foi um aluno menos atento e certamente poderia ter alcançado maiores altitudes se ouvisse melhor às exortações de Fangio.” 

Rebeldia e Classe

Luigi Musso quando criança.

Talvez a origem do piloto italiano revele o porquê de tamanha obstinação e orgulho. Luigi Musso nasceu em 28 de Julho de 1924, fechando a prole de cinco filhos de Domenico Musso, um diplomata que fizera fortuna servindo na China. São duas as irmãs (Elena e Matilde) e dois os irmãos (Luciano e Giuseppe). Após firmar sua residência na Itália, Domenico fundou uma prestigiada produtora cinematográfica que contava com um bom número de estrelas italianas – como Roberto Rossellini e Alida Valli. O caçula Luigi cresceu entre imensas regalias numa bela mansão na Piemonte, muito perto da ainda hoje tradicional Via Vittorio Veneto, região central de Roma. Aos 16 anos, um infarto lhe tira o pai. Mas este, tendo se desdobrando para gerenciar a casa da melhor forma possível, exercendo mesmo uma figura de proa na exigente educação de seus filhos, já havia feito tanto por eles que Luigi adolescente tem mais que o suficiente pra seguir muito bem por conta própria.

Como atributos a serem somados a grande inteligência que iluminava seus olhos verdes e sua muita beleza física, Luigi fora bem iniciado nas letras e nas artes, além de ser ótimo cavalgador e habilidoso também no tiro e na esgrima. Não admira que tivesse tamanha consciência de si mesmo, crescendo um jovem não muito acostumado a fazer-se de aprendiz. Casa-se muito jovem com a jovem Teresa Patrani em 1945 (aos 21 anos) tornando-se depois pai de um casal de filhos – Giuseppe (indicativo suficiente de quem era seu irmão mais querido) e Lucietta.

Luigi desde que se entendera por gente tem paixão por mecânica e carros, dono de um Fiat Topolino antes mesmo de obter a habilitação. Excitado com os experimentos automobilísticos de seus dois irmãos mais velhos – que tinham carros esporte (Luciano era dono de uma Ferrari 166 e Giuseppe, de um Stanguellini) e eram pilotos amadores –, o piccolo Luigi já era de um gênio que não convencia seus irmãos de lhe darem o esperado apoio fraternal para ele começar a correr com automóveis.

Musso na Mille Miglia, 1952, ao volante de sua Giannini 750 e em companhia de Adriano Ferranti.

É muito auspicioso o fato de que ele tivesse que buscar por conta própria a compra de um protótipo Giannini baseado no motor de 500cc de uma motocicleta CNA-Rondine que, beneficiado, subiu a algo em torno de 750cc. Mas não tão propício é o fato de que, em 1950, numa de suas primeiras corridas com esse carro (as fontes divergem entre o Giro da Sicília e a Mille Miglia) o jovem de 26 anos perdesse o controle dando um encontrão num famoso monumento a Giuseppe Garibaldi (e já que as fontes divergem, não podemos afirmar com exatidão se foi no monumento em Marsala ou no de Civitavecchia, mas todas as fontes dão marca de uma batida no monumento em homenagem ao herói). O susto foi só superficial, danificando sua caixa de câmbio que ficou travada na ré; e certamente, essa aventura deve ter dado a seus irmãos o que falar.

Mas de que serve a obstinação? E mesmo apesar de uma desanimadora série de insucessos logo no início da carreira, o moço não se deu por intimidado: uma vez consertada a Giannini, continuou a inscrever-se em provas de carros esporte, absorvendo o feeling da pilotagem e ganhando a experiência que precisava na medida em que sua paixão pela velocidade crescia.

Sua aptidão aos esportes de coordenação fina (como o tiro) e aquele cuidado com a montaria que só uma escola de equitação poderia ensinar, levaram Luigi a desenvolver rápido uma boa finesse. Enzo Ferrari o compararia ao patriarca dos estilistas Felice Nazzaro, mestre que tirava o melhor da mecânica sem abusar do motor. E não demorou para que o nome de Musso ganhasse notoriedade.

No mundo do desporto automobiístico, o auge da glória italiana estava em marcha vertigionosa, com os pilotos da bota a dominarem tanto o Mundial de F1 quanto os mais tradicionais enduros de carros esporte. O triunfo de Farina abrira estrondosamente o campeonato inaugural de F1 e com o meteórico advento de Ascari e de marcas como Ferrari, Maserati e Lancia, estava claro que a Itália gozava de ótimo fôlego na disputa internacional. Novos talentos surgiam e eram promovidos desde a Sicília até Aosta, se concentrando na Lombardia e sua modelar Monza, ao norte de Milão. Um nicho disputadíssimo esse que Luigi Musso escolheu para triunfar. Era preciso ser ágil e forte.

É nessa época que o fratello dileto Giuseppe se deixa convencer pelo aparente dote de Luigi e cede-lhe o Stanguelini para que corra. Sucesso imediato. Musso vence em sua classe no Giro della Calabria. A partir daí, se torna um nome a ser procurado nas classificatórias das corridas italianas de carros esporte. E vai se firmando como um bem possível nome a levar adiante a chama italiana na elite do automobilismo.

Conquistas Dentro e Foras das Pistas

Musso & Maria Teresa de Filippis.

Em meio às corridas, conhece a famosa condutora Maria Teresa de Filippis e ela logo se torna na vida de Musso o motivo mais convincente para buscar o divórcio. “Fiquei noiva de Luigi por três anos enquanto esperávamos que a igreja anulasse seu casamento“, lembra Maria Teresa. “Enquanto isso, corremos juntos por toda a Europa. Ele amava apostar e eu dava corda pra ele. Apostamos um relógio de ouro para quem batesse por último em uma subida de montanha; como ele bateu primeiro, ganhei o relógio.” Há um indicativo preocupante por trás desse bucólico relato: Musso herdara também do irmão Giuseppe esse gosto por grandes apostas e desenvolveu perigosamente esse apego; não era só ‘amor’ o que nutria pelas apostas, como na verdade viciou em jogos de azar. Mais tarde, as consequências disso concorrerão diretamente com sua morte.

Em 1953 a Maserati escolhe ceder para venda três de seus novíssimos A6GC Sport para as maiores promessas do ranking italiano: Sergio Mantovani, Emilio Ginetti e Luigi Musso. E é este último quem melhor responde ao benefício. Com pódio atrás de pódio, ele se torna campeão da Classe Italiana de Esportes com 2 litros. Logo a equipe do Tridente oferece-lhe um A6GC Monoposto pra tentar a sorte no GP da Itália, marcando presença com uma boa estreia na F1, alcançando um 7º lugar em Monza dividindo o carro com Mantovani.

O volúvel Musso não sustém o enlace com Maria Teresa, não muito depois apresentando-se em companhia daquela que viria a ser para sempre conhecida como o sua donna: Fiamma Breschi, na época uma belíssima florentina de vinte anos, atriz, fascinada pelo garbo do piloto. Os dois logo se tornam inseparáveis.

Fiamma Breschi & Musso.

Em 1954, Luigi se torna regular no cockpit de uma Maserati Esporte, terminando em 3º na Mille Miglia a apenas 9 segundos de Vittorio Marzotto. Também faz bonito na Targa Florio, terminando em 2º atrás da Lancia Aurelia de Taruffi. Sua estreia na novíssima 250F no GP de Roma não foi tão boa; abandonando na 30ª volta com problemas de motor, ele teve que assistir do lado de fora da pista ao passeio de seu companheiro de equipe argentino Onofre Marimón.

Porém, sua segunda corrida guiando o lendário bólide da casa de Don Alfieri (prova disputada no dia 15 de Agosto daquele ano), foi digna de muita festa: largando na segunda fila na Coppa Acerbo, e aproveitando as falhas de Moss, Manzón e do soberbo Bira, se impôs depois de uma dura luta com o talentoso Clemar Bucci e numa grande exibição nesse exigente circuito de 25km de Pescara, terminou os 16 giros em primeiro. Sua primeira vitória em Grandes Prêmios foi acolhida com imenso entusiasmo, todos já cientes que grandes coisas se poderia esperar daquele jovem de tanto estilo dentro e fora das pistas. Na sua próxima tentativa em Monza teve que se retirar por um problema no câmbio. Mas na prova seguinte em Pedrabes, terminou em segundo atrás daquele que se tornaria de maneira cada vez mais amarga o seu principal rival nas pistas: o inglês Mike Hawthorn.

No ano seguinte consolidou-se: conseguiu um ótimo terceiro lugar em Zandvoort atrás das Mercedes W196 de Fangio e Moss e venceu o prestigiadíssimo Gran Premio Supercortemaggiore, compartilhando uma possante Maser 300S com seu amigo Jean Behra. Prova triste, notória por não contar com a presença de Alberto Ascari, morto em Monza naquela mesma semana quando testava a Ferrari 750 que partilharia na corrida com Castellotti. Com a aposentadoria de Farina e o desaparecimento de Ascari, um vácuo imenso assumia lugar no coração da torcida italiana. Musso sabia disso, e entre todas as promessas que despontavam para o público de Monza, ninguém ansiava como ele preencher esse vazio.

(…)

Portanto, era mais que esperado que o talento de Musso fosse notado por Enzo Ferrari e a possibilidade de um grande futuro para o piloto romano na Scuderia fosse aventada pelo Comendador. Assim, Musso realiza o primeiro de uma série de grandes sonhos: torna-se honrosamente piloto oficial da mais conceituada equipe de competições do mundo. Para ele é um degrau privilegiadíssimo na conquista das maiores glórias, ventura que lhe absorve de corpo e alma e na busca da qual não medirá esforços para alcançar o premio máximo.

O Destino, contudo, olha de soslaio.

 

15 de Agosto de 1954: Luigi Musso ovacionado em Pescara, na sua primeira vitória num Grande Prêmio, a bordo da novíssima 250F. 

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Nas próximas partes: a Primavera, os Temporais e a Ceifa de Luigi Musso.

 

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