No Retrovisor – Porque Gosto Tanto Das Corridas Antigas

 

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Há cinco anos um fotógrafo experimentou clicar a F1 com uma câmera de cem anos… Gostou do resultado?

Um dia desses me deparei com um meme que era um arquivo de imagem com duas fotos, uma acima da outra: na de cima, a largada do GP do Brasil de 2008, com carros embaralhados em meio à chuva e o dizer “THIS IS F1”; na imagem debaixo, um pace-car recente induz o ritmo de duas Mercedes e duas RBR’s também na chuva, mas uma frase sobre essa parte da imagem deixa pouco pra imaginação – “THIS IS A JOKE”. Eu compactuo com o sentimento expresso por esse meme basicamente porque, em se tratando de Fórmula 1, sofro de uma “febre de museu” crônica… Me perdoem os fanáticos pela F1 de hoje, mas eu com certeza me deixaria prender sem luta durante a transmissão de uma corrida da atualidade se me prometessem que meu cativeiro seria em um gabinete com nada além de um projetor cinematográfico e estantes cheias com rolos de filmes das corridas antigas. Choraria um pouco em prol de um café e um pão com manteiga, mas se não me dessem nem o benefício de uma pipoquinha, ainda assim, quem estivesse do lado de fora da porta me ouviria vibrar. Acho que em relação ao prestígio de uma prova que conte com a presença de um Jackie Stewart ou um Jack Brabham por exemplo, não há o que se comparar com o que essa safra de agora pode produzir – tanto quanto penso que Linkin Park não eletrifica como Led Zeppelin.

Tenho um sonho meio póstumo – pro caso de ser assim tão impossível eu ver antes da minha ida pro além uma máquina do tempo funcional e com preço acessível: queria poder morar num bangalô à sombra do banking de Monza, só pra poder ver algum dia e bem de perto Alberto Ascari passar… mas isso só se fosse definitivamente impossível eu conseguir uma daquelas touquinhas de couro com óculos de aviador pra desbravar aqueles templos do esporte numa daquelas baratinhas com rodas de CG… porque se eu tivesse uma chance, certamente morreria (feliz!) tentando!

Peter Collins, grande figura dos anos 50, na volta triunfal de sua derradeira vitória (Silverstone, 1958)

Verdade. Em se tratando de automobilismo, imergi tanto nas profundezas do passado que me tornei um péssimo novidadeiro – enquanto eu tiver minha coleção de vídeos sobre as antigas, não dou um fio da minha curiosidade pra saber de antemão quem estará no grid do ano que vem.  Mas me sinto tão confortável nesse sarcófago de memórias que nem me resta dúvida de que há pra mim um lugar e uma função, tanto quanto para um retrovisor.  E para abalizar esse meu ponto de vista, quero deixar aqui 4 motivos pelos quais penso que a F1 das antigas é maior e melhor que a de hoje. Serão 4 e penso que 4 está de bom tamanho. Deixo espaço aberto pra você discordar dessa minha “paixão pelo antigamente”, bem como dos poucos motivos que vou apresentar dos muitos que a nutrem.

E estou quase certo de que qualquer cabeça de petróleo um pouco mais incurável tem tudo pra se deixar cativar pelas razões que apresento. Creio que os exemplos que darei poderiam ser tomados como gabarito para uma Fórmula 1 como a de hoje, que na minha opinião se debate na luta pra reencontrar a credibilidade conquistada na passagem de ases como Fangio, Clark & Lauda e consolidada na era-Piquet/Prost/Senna.

Certamente, que o circo das décadas passadas nem sempre experimentou de maneira desimpedida esses valores reluzentes citados abaixo, às voltas que andava com o insistente terror da morte. Contudo, penso, não há mancha de sangue que apague de maneira definitiva a brilhante, cristalina visão dos pontos abaixo, valores a elevar a uma altura estratosférica a forma como eram levadas as corridas até a era de ouro da F1.

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Motivo 1 – O Espírito do “Entre e fique a vontade”

O privilégio de estar rente ao perigo não era só dos pilotos; olha o publico que assistiu a largada no Glen em 1967…

Uma das coisas que mais me acendem aquela nostalgia onírica, de pensar “Puxa, como eu queria ter nascido pr’aquela época!”… Até meados dos anos 70, a acessibilidade do grande público ao parque de um fim-de-semana com GP extravasava qualquer limite. Era possível a qualquer guri esperto furar com facilidade o bloqueio de segurança do circo e transpor os limites das arquibancadas, se misturando aos protagonistas dos espetáculo. Houve um tempo em que entrar na pista não era privilégio exclusivo de pilotos (ou piração de um padreco irlandês). Reconheço que boas coisas se faz hoje em prol da proximidade entre a F1 e o grande público. Mas o que hoje em dia se compara com o passe livre do público de antigamente? É saber que Mario Andretti quando menino entrava pelo buraco na cerca pra ver a Ferrari em dia de testes em Monza e saber que o que se tem hoje, mesmo com os melhores esforços da Liberty Media junto às redes sociais, não pode se comparar a isso. Procure fotos dos lugares que os fotógrafos arranjavam para clicar de perto às máquinas em marcha de corrida e verá: houve um tempo em que a F1 pertencia ao povo e não havia como hoje um irremediável limite estabelecido a manter o público numa distância segura do vento causado por um carro a 300km/h.

Lógico que é chato o fato de que isso potencializava (e muito) o risco já existente, e não só na ficção temos fortes alusões a isso (como no acidente de Sarti em Spa no filme Grand Prix de ‘66), mas também, e principalmente, certos fatos da História (como o acidente entre Villeneuve e Peterson em Fuji-77) confirmarão isso pra sempre. Mas mesmo apesar do risco incalculável que isso acarretava à vida humana naquele tempo, não consigo deixar de sentir uma profunda inveja dessa inocência de moleque travesso (que nunca sabe direito qual o limite pra se viver perto do perigo) que até então envolvia toda a atmosfera do esporte.

E por falar em inocência…

Motivo 2 – A Audácia Inconsequente dos Pilotos

Jules Goux numa de suas paradas para “reabastecimento” (Indy 500 – 1913)

Só pelo paralelo ideológico: reza a lenda (confirmada pelos jornais da época) que Jules Goux venceu as 500 Milhas de Indianápolis de 1913 com o sorriso enviesado de quem não passa no teste do bafômetro… Isso porque o ás da Peugeot entornou quatro garrafas de champanhe durante o percurso – foi pego em flagrante de litro cada vez que parou nos boxes. E depois do final ainda declarou que “Não teria vencido se não tivesse bebido.”

A História do Automobilismo prova: durante muito, muito tempo perdurou entre os volantes esse costume de equilibrar-se entre o garbo e a bravata e assumir riscos dignos de quem anda numa corda bamba sobre o abismo e ainda por cima, sem jamais parecer se dar conta disso. Correr de automóvel numa pista de corridas com outros dividindo a disputa pela meta foi, por mais de um século, um jogo de dados com o destino. E a pureza na índole e nos modos dos homens e mulheres que faziam isso quase nos fazia esquecer o perigo que envolvia a coisa toda. O sorriso costumeiro que os pilotos davam para a tradicional foto no pitlane da supracitada Indianápolis quase sempre queria dizer: “Você está preparado pra me ver nadar com os tubarões?”, ainda que parecesse um doce e firme “Fiquem tranquilos, que eu volto para o jantar”. Nesse mesmo espírito, Gilles Villeneuve nos garantiu que jamais se machucaria dentro de um carro de corridas… E acreditar nas palavras dele acariciava tanto a nossa própria candura que, ainda que nos lembrássemos de Jim Clark, facilmente nos deixamos enganar.

Gilles Villeneuve em Kyalami, 1982.

Penso ser esse um dos principais motivos pelos quais os mitos da velocidade fossem reputados como heróis por uma parte considerável da massa. Creio que todo mundo tem em si um pouco de Jack Kerouac, pra quem “pessoas mesmo são os loucos, os que jamais bocejam nem falam bobagens mas queimam e queimam como fabulosos fogos de artifício”. A autenticidade fervilhante de um piloto de corridas nos tempos antigos estava implícita em cada passo que eles davam, em cada gesto que executavam, desde o mais impercebido. Noto isso quando vejo um sorridente Emerson Fittipaldi caminhar ao lado de uma linda modelo britânica no grid em Silverstone-73.

Esse charme sem fingimento de um Peter Collins ou de um Siffert é pra mim a coisa mais obsedante, essa capacidade incrível que eles tinham de não fazer caso de ter um elefante enraivecido na sala e, sem deixar de ser humano, lidar com a morte que rondava o circo com uma destreza igual à que usavam num powerslide. E em cada aceno que entregavam à multidão bem como em cada bombeada que davam no acelerador, em cada marcha que passavam, em cada esterço, em cada ultrapassagem que conseguiam, sentíamos somente o júbilo de ver alguém conseguir atravessar uma grande barreira, não só provando que não há nada impossível pra quem quer ir além, mas nos suspendendo de tal em forma em sua habilidade e coragem que deixávamos pra pensar em toda aquela morte que espreitava em volta de cada metro da pista só mesmo quando não dava mais pra ignorá-la, depois que um valente tombava.

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Motivo 3 – A Beleza Simples dos Carros

Onde fomos parar?…

Não está claro desde o fato de não podermos mais chamar os motores de motores (já que hoje “frankeinsteinizaram” a coisa, transformando os propulsores em misturas tão híbridas que agora temos que chama-los de “unidades de potência”…), algum tempero bem estranho entrou no caldo?… A feitura de um bólide, levada a cabo em fábricas tão roboticamente ambientalizadas, como laboratórios de última geração, com aquele chão tão impecavelmente mantido branco e mecânicos com luvas de látex e jalecos igualmente alvejados, tem todos os atributos exacerbadamente sofisticados de uma trama de ficção científica e, creio eu, traz um resultado um tanto deprimente se comparado como que se criou no passado. Até porque, tem uma certa dignidade rústica saber que no passado podia-se criar um carro de Fórmula 1 em qualquer celeiro. E que carros eles criavam!…

Eagle-Weslake T1G (Mk1) em Mônaco, 1967

Veja por exemplo a exuberância das linhas de um Eagle-Weslake T1G, com seu corpo inspirado no perfil de um tubarão branco, no seu característico azul-petróleo e peças cromadas, volante que era só um volante (e não um multi-pad com é hoje), conta-giros analógico e só mais uns poucos mostradores pra administrar a pressão do óleo e o consumo de combustível… Não precisava mais que isso para que um piloto desse seu show. E o motor!… um “simples” 12 cilindros em V com seus escapamentos expostos, produzindo uma sinfonia de embasbacar; esse lindo charutinho que Dan Gurney bancou e pilotou pra vencer o GP da Bélgica de 1967. Ficou relativamente longe de ser um carro campeão… mas como fazia sonhar!…

Tem gosto pra tudo e tem todo o meu respeito quem encontra beleza nos bólides atuais, com seu aglomerado aerodinâmico e tamanho que impede qualquer apelido carinhoso. Mas apesar de sempre gostar muito de F1 e encontrar sempre (também entre as atualidades) coisas nas pistas que mexem positivamente comigo, creio que, de tudo o que se pode criar hoje, nada me arrebatará como a visão de uma Lotus 72D no negro e dourado com que ficou conhecida, nada hoje pode apaixonar como os traços agressivos de uma Dino 246, nada repetiria a imponência de uma Alfetta 158. Alguém discorda?

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Motivo 4 – A Informalidade dos Construtores e Mecânicos.

Surtees inspecionando o asseado trabalho dos mecânicos japoneses em 1968.

Vejo provas de enduro hoje, em que existe o largo uso da fita adesiva para reaprumar a integridade do Bodywork que foi lesado por uma batida de menor estrago e suspiro… Ah, a Formula 1 já teve disso!… Era tanta a liberdade para criar e improvisar na F1 que outra lenda reza que John Cooper bolou o esboço de seu primeiro carro campeão riscando com um giz o chão da oficina. Sempre vou achar admirável essa semelhança com os ases pioneiros, daqueles tempos jurássicos de máquinas um tanto monstruosas e calhambeques adaptados, passando velozes em estrada de terra e brita. O experimentalismo improvisante de um Colin Chapman guarda semelhanças com a incrível resiliência de um Charles Jarrott, que em começos de século XX usou a mobília descartada de um hotel de beira de estrada pra remendar o chassi rachado de seu carro e terminar a corrida. Como não dar um sorriso sonhador ao ver Nuvolari na Copa Brezzi em 1946, entrando no pit com aquele volante na mão e saber que ele voltou pra pista com uma chave de rosca presa na coluna de direção?…

Vendo esse tipo de coisa, dá até pra esquecer que o Automobilismo sempre foi um esporte para a gente de melhor poderio econômico, dá quase pra pensar que o caso de Jimmy Murphy, um órfão pobre que encontrou uma brecha como mecânico pra subir ao status de ás, não é exceção. Essas coisas não acontecem mais.

Emerson com uma Lotus 72D no GP da Italia em Monza (10 de Setembro de 1972)

Em Monza-1972, notou-se um vazamento de combustível na Lotus do Emerson bem na formação para o grid de largada. Não se pensou duas vezes: cobriram o tanque com panos molhados e executaram ali, em meio a uma clareira humana, uma solda no tanque. Hoje, recolheriam o carro e se houvesse um reserva a postos bem; senão… (…) É disso que eu estou falando.

O esporte que amamos está bastante imbuído desse cientifismo azedo, a tal ponto que se “produz” uma ultrapassagem na pista através de um dispositivo aerodinâmico (a asa móvel). Isso é tão estranho (diria até dolorido) para um purista quanto trocar um Opala SS por um Onix hidramático. Não que eu seja contra o progresso; só não consigo me deixar cegar pelos benefícios do agora até ignorar de vez o quanto essa vigente dependência da Matrix destoa daquilo que consideramos mais humano em nós, e que, quando deixamos, vigora mais profundamente naqueles momentos em que falta a luz em casa. Gosto do que conquistamos com a passagem do tempo até o ponto em que isso não nos faça esquecer das origens e nos permita recorrer à simplicidade de antes sempre que necessário – coisa que não cabe na atual Formula 1.

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2 Respostas

  1. Alessandro

    Ruy Petra,qdo comecei a ler pensei que no final iria escolher um dos quatro motivos, não deu,todos eles representam o sentimento de quem curte a essência da F1.
    Belo texto, parabéns!

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