Eugenio Castellotti, O Fidalgo do Volante

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Castellotti tinha dinheiro, sucesso, amor, ele era muito apreciado pela imprensa italiana e querido até por Enzo Ferrari, conhecido por ser um personagem que não era fácil; mas jamais deixou de cismar nele um certo brilho trágico já que, desde que começou a despontar pra evidencia, o assombrasse o desaparecimento de seu querido amigo Alberto Ascari, a quem ele tinha como um mestre.

Tinha o rosto e o corpo de uma celebridade, havia também quem elogiasse sua voz. Se tomasse parte no show business teria entrado por direito no “Clube dos 27” – definição cunhada pela mídia inglesa, para reunir todas as estrelas e ícones pop desaparecidos aos 27 anos de idade: Robert Johnson, Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Pete Ham, Kurt Cobain, Amy Winehouse e Jean-Michel Basquiat.

Veloz e marcante, Castellotti é como um bom riff de guitarra, que cessa repentinamente mas deixa sua marca.

Origens

Nascido em Lodi em 10 de outubro de 1930, Eugenio Castellotti foi o primogênito de uma rica família proprietária de terras. Filho de uma mãe muito jovem, com pouco mais de dezesseis anos que trabalhava na casa dos Castellotti e com quem ela teve um relacionamento tortuoso. O pai do futuro piloto, advogado, só o reconheceu quando ele tinha nove anos. Ele logo aprendeu a dirigir, graças ao motorista da família.

O ambiente familiar era severo com um pai apaixonado por carros de corrida, mas qu não gostava do interesse espasmódico do filho em motores e velocidade.
Ele tentou proibí-lo de quase tudo na tentativa de mantê-lo afastado dos motores; Eugenio porém fazia todo o possível para satisfazer sua paixão pela velocidade, muitas vezes fugindo com uma motocicleta pelas ruas de Lodi e Piacenza.

Sua carreira nas corridas começou oficialmente em 1º de abril de 1951 com a equipe Marzotto no décimo primeiro Giro di Sicilia; depois, no final daquele mês, ele participou do Mille Miglia com o co-piloto Rota, e se viu competindo contra pilotos já conhecidos como Cortese e Marzotto, colocando-se no centro das atenções como piloto rápido e às vezes impetuoso. Nesse tempo, corrida com carros esportes e Fórmula Dois.

Em 1952, conquistou as primeiras vitórias. Em 9 de março obteve o primeiro lugar de sua categoria no Tour da Sicília e, 10 dias depois, se destacou na Taça de Ouro de Siracusa em um confronto roda com roda com Sighinolfi. Depois disso passou da Scuderia Marzotto à Scuderia Guastalla. Em sua segunda participação no Mille Miglia, ele finalmente desafiou os maiores da mesma categoria: Taruffi, Biondetti, Bracco, Fagioli e, além disso, três Mercedes 300 SL e durante um certo período, durante a corrida, ficou em segundo lugar atrás do vencedor Kling em uma das Flechas de Prata.

Castellotti em Silverstone, 1956.

A Chegada à Ribalta

Graças a tudo isso, Eugenio foi convocado pela Lancia para competir na sua recém formada equipe de corridas. Primeiramente esquentou com carros esporte em vários eventos. Alberto Ascari era a estrela da Lancia, e tinha no currículo os campeonatos de 52 e 53 pela Ferrari após um longo e exaustivo duelo com o argentino Fangio (para muitos, o melhor piloto da época). O grande bicampeão italiano se afeiçoou imediatamente ao jovem Castellotti, e os dois criaram um laço fraterno raramente visto no esporte. Em Eugenio, Ascari viu seu herdeiro natural nas corridas. Foram dois anos aprendendo de perto a arte do grande campeão milanês. Nesse ínterim, Castellotti disputou a Carrera Panamericana de 1953; uma corrida infernal, em condições de estrada e num certame disputado realmente no limite, onde ficou em terceiro atrás de Juan Manuel Fangio e Piero Taruffi. Ele também venceu as 10 horas de Messina.

Em 1954, juntamente com Ascari, ele foi forçado a adiar sua participação no campeonato de Fórmula 1 devido a uma decisão da Lancia, na dificuldade de enfrentar o projeto. Castellotti estreou na Fórmula 1 apenas em 1955 com o Lancia D50, numa equipe que também incluía Luigi Villoresi.

Ele ficou em segundo lugar no GP de Mônaco, aquele em que seu amigo Alberto Ascari sofreu um acidente grave, do qual milagrosamente se salvou após um voo no mar. Quatro dias depois a este incidente, em 26 de maio de 1955, Castellotti testava um Ferrari 750 em Monza, e ligou a seu amigo e mentor convidando-o para vir ao circuito de Brianza ver como está a preparação da Ferrari sport com a qual disputariam uma importante corrida naquele mesmo circuito dali a alguns dias. No final da sessão de teste, Ascari pede para testar o carro e na terceira volta se acidenta na velocíssima curva Vialone que, em consequencia disso, levará seu nome. Uma tragédia que marcará para sempre a Castellotti e fará com que a Lancia tome a decisão de se retirar das corridas.

 

Após a Lancia

Gianni Lancia estabeleceu um acordo com Enzo Ferrari a quem vendeu as D50 e, ao mesmo tempo, houve também a passagem dos pilotos para a Rossa. Além do material da Lancia, o Drake visava precisamente a Castellotti, que ele considerava o herdeiro Ascari em todos os aspectos. Uma única D50 foi enviada a Spa para disputar o GP da Bélgica nas mãos de Castellotti. Nesse evento o piloto de Lodi conseguiu a única pole da carreira e isso, num circuito que ainda era desconhecido pra ele. Na corrida, ele foi forçado a se retirar enquanto ocupava a terceira posição atrás dos dois Mercedes de Fangio e Moss. Após a corrida de Spa, passou para a Ferrari com todas as intenções e propósitos, com o qual foi quinto no difícil circuito holandês de Zandvoort, o sexto no GP da Inglaterra na pista de Aintree e no degrau mais baixo do pódio em Monza, obtendo no final da temporada terceiro lugar no geral.

Enquanto isso, ele se tornara um personagem de capa, rico, fascinante, já no auge da onda. Envolto de belas amizades femininas, o que também aumentava sua reputação como playboy. Entrou com firmeza não só nas páginas da Gazzetta dello Sport como também de tablóides ao flertar com Anna Maria Ferrero, Edy Campagnoli e Sandra Milo, e depois com o que será o amor de sua vida, a grande Delia Scala, que conheceu precisamente no verão de 1956 em um restaurante. Um relacionamento (para dizer o menos) fortemente oposto ao apreço da mãe de Castellotti.

Quanto à temporada esportiva, em 1956, ele começa na primeira fila do GP da Argentina na Ferrari, mas se retira na volta 43 devido a um problema de transmissão. No GP de Mônaco, ele começa na primeira fila pela terceira vez, mas fecha em quarto lugar. Em Spa se retira devido ao usual problema de transmissão. No circuito de Reims, na França, é o segundo lugar atrás do outro ferrarista Collins. Na Inglaterra, em Silverstone, ele fecha em 10º lugar. Em Nurburgring, a retirada ocorre por volta da 13ª volta por um acidente com o outro piloto da Ferrari, Musso. A temporada termina em Monza, com a segunda largada imediatamente atrás de Fangio e o oitavo lugar na corrida.

Castellotti terminou o campeonato de F1 em sexto lugar, mas o verdadeiro triunfo do ano foi na Mille Miglia na clássica Ferrari 290S de doze cilindros, derrotando seus adversários, terminando a corrida em menos de 12 horas, sob forte chuva, à frente de seu companheiro Peter Collins por mais de 12 minutos; um pódio fechado com Musso. O grande Fangio fechava os quatro primeiros.

No mesmo ano, ele também venceu as 12 horas de Sebring com a Ferrari, em dupla com Fangio e também conquistando o título de campeão da Itália.
Em dezembro de 1956, a Ferrari apresentou sua nova equipe de corrida e seus pilotos. Todos os jovens, alguns até muito jovens, um jornalista da Gazzetta dello Sport os batiza de “Ferrari Primavera”, empregando um termo do futebol. Eles eram Eugenio Castellotti, Luigi Musso, Alfonso de Portago, Peter Collins e Mike Hawthorn. Dois italianos, um espanhol e dois ingleses, todos muito rápidos. Se percebe claramente através de seus traços refinados que cada um dele provém de uma família rica, se não mais, de fato nobre. São brincalhões, cheios de anedotas, cheio também de orgulho, todos com a mesma insuspeita gana de ganhar e a cara de pouco desistir. Eles também eram conhecidos como “indisciplinados”. Uma situação (para dizer o menos) explosiva desde o início em Maranello, que provocou rivalidades internas e muito mais.

Morte

O último GP de F1 em que Castellotti participou foi o GP da Argentina para na abertura da temporada de 1957, onde ele foi o mais rápido na classificação entre os pilotos da Ferrari, mas o desafio foi realmente difícil e, depois de Moss, Fangio e Behra (todos numa Maserati 250F alcançou os três primeiros lugares no grid, Castellotti resistiu até a embreagem de sua Lancia-Ferrari D50 ceder e forçá-lo a abandonar. O Grande Prêmio seguinte seria em Montecarlo, em Maio.
Enquanto ele estava em Florença com sua amada Delia Scala, Eugenio foi contatado por Enzo Ferrari, que o avisou de que o recorde da pista em Modena havia sido quebrado por Behra numa Maserati 250F, o histórico rival da Rossa em todos os sentidos; o Comendador então ordenou que Castellotti fosse imediatamente para Modena, para testar o novo Ferrari 801 no circuito local.

No amanhecer de 14 de março de 1957, assim que chegou ao circuito, praticamente sem ter fechado os olhos para descansar, Castellotti entrou no carro e deu comerço aos testes, dando continuidade a estes à tarde. Às 17h19, ele saiu do Curva delle Tribunette, batendo a mais de 200 por hora, morrendo instantaneamente. As causas do acidente nunca foram realmente esclarecidas. Há quem aponte a pista escorregadia, uma falha do eixo de transmissão da Ferrari, mas também as condições de Castellotti, que retornara de Florença tarde da noite, onde ele estava com sua namorada Delia Scala e seu desejo de provar a Enzo Ferrari que ele era o melhor, querendo retomar para a casa de Maranello o recorde histórico daquela pista a todo custo, arrebatando-o da Maserati.

O impacto da mídia foi impressionante: Castellotti era um dos pilotos italianos mais importantes, ele esteve na Lancia e na Ferrari, ele foi o herdeiro designado de Alberto Ascari. Em seu funeral, La Scala não apareceu para evitar a mãe de Castellotti. Delia continuará a vivenciar no coração o romance conturbado com o piloto de Lodi, que considerará o verdadeiro grande amor de sua vida.

Quanto aos demais “indisciplinados” da “Ferrari Primavera” morreram todos os quatro, e todos, à exceção de Hawthorn (o único entre eles a coroar seu sonho de se tornar campeão mundial de F1) ao volante de um carro vermelho.

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