Cevert – O Delfim de Olhos Azuis (Parte Final)

Pista livre pra ele. Naquela manhã de um sábado outonal, num lugarejo a 410Km ao norte da cidade de Nova Iorque, antes de dar partida no motor e sair do pit lane, assinalou a um mecânico próximo uma coincidência que só podia ser sinal de sorte: “Hoje é dia 6, piloto um Tyrrell 006 nº 6 e atrás de mim tenho um Ford Cosworth cujo número de série é 066!… Hoje é meu dia!…” Se conseguisse a pole, seria a primeira do carismático parisiense em seus três anos de F1. Quando ele liga o motor e os mecânicos se afastam, avista sua amiga Helen Stewart, a esposa de seu companheiro de equipe, postada sobre a lage das instalações de box com sua câmera de fotografar. “Ele me viu ali em cima e me deu um tchauzinho. Depois fechou a viseira e me mandou através do capacete um beijo com a mão. Foi a última vez que o vi.

***

François Cevert morreu enquanto ensaiava o seu auge, imediatamente antes de concretizar a plena prova de seu talento. Acerca do grande músico de jazz Eric Dolphy, alguém certa vez escreveu: “A morte define o todo de um homem. O potencial para coisas não feitas jamais poderá existir.” Setença que serviria de epitáfio ao marcante francês de vívidos olhos e sorriso contagiante. Mas não é comum se lembrar disso ao se falar do piloto. Quando Cevert é citado, fica inevitável pensar no desperdício acarretado pelo seu desaparecimento na tenra idade de 29 anos, e no quão longe ele poderia ter chegado. Poucos são os que contestam a afirmação de que ele se tornaria o primeiro campeão do mundo pela França. Debaixo do impacto de sua morte, toda a atmosfera daquela corrida mudou drasticamente. Não era qualquer um que morria, mas uma das figuras de proa do circo, alguém que todos tinham por certo ser a cara da F1 no futuro. Naquele tempo as transmissões da Formula 1 ainda engatinhavam, mas a noite o acidente seria tema de destaque em noticiários ao redor do mundo. John Watson estava prestes a largar em sua segunda prova na F1; na primeira, em Silverstone naquele mesmo ano, testemunhara um baita enrosco após a largada que felizmente não deixou vitimas sérias. E ali, no Glen, depois de ver um colega tombar, não sabia direito o que fazer; enquanto os carros estavam sendo alinhados, foi visto relativamente longe do grid por Bernie Ecclestone, proprietário da Brabham que pilotaria. O barbudo irlandês estava com o olhar perdido, recostado na parede de um dos boxes. Ecclestone veio e lhe perguntou: “O que está fazendo?

_ François está morto!… – foi a resposta do piloto.

_ E daí? retrucou o patrão Ele morreu fazendo algo que, naquela fração de segundo, estava dando a ele a maior alegria, prazer, satisfação. Você é um piloto de corridas!… Saia já daí e vá fazer seu trabalho!…

Nessa torrente em dispersão que é a Formula 1 não há tempo para chorar seus mortos, sensação engolida em seco pelo suéco Ronnie Peterson, o pole do grid naquele ensolarado dia americano. Quando naquele Glen ele capitalizou sua frente numa vitória de titã, quem o viu subir à tribuna o viu sorrir, e de uma maneira que mal dava pra perceber que há pouco ele acabara de ver morrer o seu melhor amigo nas pistas; não demonstrava um mínimo tremor de comoção, nada que indicasse uma ponta de remorso por ter acabado de superar o mesmo amigo morto na tabela do Mundial, ou a lembrança de que aquele amigo, exatamente um ano antes, estava ali, em cima daquele pódio, com seu largo sorriso. Passada a euforia, Peterson disse: “Eu sou um piloto e é isso que eu faço pra viver. Por isso corro. Por isso corri hoje. Porque hoje eu não consegui sentir nenhum prazer enquanto pilotava.

Dois anos depois, confessaria que o que viu nos treinos para aquela edição do Glen de ’73 nunca conseguiria esquecer.

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O Período Final Da Incubação

1971 foi uma temporada de sonho para a equipe Tyrrell. A iniciativa de construir seus próprios carros foi coroada com um campeonato incontestável, tanto no Mundial de Pilotos quanto no de Construtores. Stewart levou seu segundo campeonato vencendo 6 das 11 corridas. Cevert em sua primeira temporada completa na F1 levou dois segundos e um terceiro antes de gravar no ranking sua vitória na última corrida da temporada em Watkins Glen, dando-lhe o terceiro lugar no campeonato, atrás de Stewart e do formidável Ronnie Peterson. A campanha do francês na F1 foi apoiada com duas grandes vitórias na F2, uma na abertura do campeonato em Hockenheim e outra no mítico Nürburgring (cujo evento agora não mais partilhava o GP da Alemanha com a F1). Claramente, Cevert havia se estabelecido muito rapidamente como um dos principais pilotos. Inspirados por seu exemplo, uma grande comitiva de pilotos franceses como Jarrier, Jabouille e Depailler vinham no seu encalço angariando sucessos nas formulas de base.

Em contrapartida, para Cevert, a temporada de 1972 na F1 foi bem escorregadia. Ele acabou por não pontuar em 5 das 12 corridas, terminando em sexto lugar no campeonato. Seus melhores resultados foram os dois segundos lugares, um em Nivelles-Baulers e outro no Glen. A salvação do ano veio do fato de que os pilotos daquele tempo não se limitavam à F1; François correu numa variedade de carros, terminando bem em algumas competições de outras categorias, inclusive no famoso enduro das 24Hrs de Le Mans, onde terminou em segundo dividindo um Matra-Simca com Howden Ganley. No Esporte-Protótipos da americana Can-Am disputou cinco corridas, levando em Doonybrooke a vitória numa McLaren. Ainda que o trabalho de Cevert (e o de Tyrrell e Stewart no seu molde como piloto) não estivesse surtindo efeitos tão significativos nas pistas, o jovem piloto continuava a crescer e sua reputação junto com ele. Era a gestação de um sonho em François Cevert e como tal, paciência era necessária. O circo era unânime em esperar grandes coisas dele para o futuro.

Foi um ano não tão bom para a Tyrrell, com o advento tardio da segunda geração dos carros do projetista Derek Gardner e com a vinda avassaladora do brilhante brasileiro Emerson Fittipaldi na clássica Lotus 72 John Player Special, além de um sério problema estomacal enfrentado pelo bicampeão Jackie Stewart, que o forçou a faltar no GP da Bélgica em Nivelles. Apesar dos problemas, o escocês terminou o campeonato num heróico segundo posto.

Para ser um piloto de chegar na Formula 1,” disse Stewart na época “não é preciso muito tempo. Mas a contagem que realmente importa é a do tempo que você leva para se tornar um piloto realmente bom, um piloto de topo. E isso, pelas minhas contas, levas três anos.” O científico escocês que era, naquele tempo, o piloto que todos queriam superar, não poderia errar quanto a essa conta. Cevert era o seu experimento em curso, meio com o qual provaria esse seu ponto. E muito mais que isso, o jovem francês era como seu irmão mais novo, aquele que você protege enquanto conduz. Entre suas frases de efeito, Cevert tinha uma particularmente famosa: “Tenho um casamento perfeito: amo meus carros de corrida e o automobilismo me ama.” O Príncipe se tornaria rei em breve pois esta era a vontade geral, dele e do circo da F1.

Nivelles, 72.

A entrar no seu terceiro ano completo em competições no alto escalão, Cevert já há muito colhia os louros de seu carisma enquanto terminava seu aprendizado nas pistas. Logo no início de 1973, tripulou a vitoriosa Matra-Simca nas 6 Horas de Vallelunga (ao lado de Pescarolo e Larrousse). Mas na F1, dispondo novamente de um carro rápido e nervoso, teria duro trabalho e pelos padrões estipulados, aquela estava sendo uma temporada razoavelmente boa. Ainda que não saboreasse a champanhe de um nova vitória, terminou seis vezes em segundo e três dessas vezes nos calcanhares de Stewart. A última dessas dobradinhas da Tyrrell veio de novo nos desafiadores 22Km do circuito de Nürburgring-Nordschleife. O pupilo seguiu de perto seu mestre na intimidante sequência de 147 curvas do monstruoso traçado durante toda a corrida, provando que agora podia acompanhar perfeitamente o ritmo do campeão Stewart. Anos mais tarde, ao recordar aquele episódio, Tyrrell sugeriu que depois da corrida Stewart havia dito a ele ele algo como “François poderia ter me passado a qualquer momento que ele quisesse…

Foi a última dobradinha de Stewart-Cevert, a 27ª e última vitória da carreira de Jackie Stewart na F1 e o último pódio da vida de François Cevert. Ao se aproximar do final da temporada Stewart contemplava a sua aposentadoria eminente (tendo comunicado isso apenas a Ken Tyrrell) e notoriamente passaria o bastão de herdeiro a seu jovem amigo francês.

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Ceifado Antes de Medrar

Jackie Stewart levou seu terceiro título Mundial ao terminar no quarto colocado em Monza-1973, após conseguir 5 vitórias entre as 14 rodadas que disputou no campeonato. Ele só não conseguiu marcar pontos em duas das etapas. Lotus era o time dominante, mas suas vitórias foram divididas entre Emerson Fittipaldi e Ronnie Peterson, permitindo que Stewart vencesse o campeonato.

No penúltimo GP da temporada em Mosport, na volta 32, François teve um grande acidente depois de um emaranhado polêmico com Jody Scheckter. A frente do chassi se dobrou, e por sorte ele escapou com apenas um machucado no tornozelo e uma opinião bem clara da pilotagem do sul-africano. Essa foi a última corrida de sua vida.

Seguiu-se um intervalo de duas semanas antes do final do Watkins Glen; Cevert mancava quando se juntou à família Stewart numa viagem para as Cataratas do Niágara e Bermudas. Jackie e François conversaram sobre o que estava em jogo para 1974. “Ele tinha uma oferta da Ferrari”, diz Stewart. “Ele não tinha ideia de que eu estava me aposentando. Eu não contei a ele, mas Ken e eu concordamos que eu deveria contar a ele, porque ele ia ser o número um. Nas Bermudas ele perguntava: ‘O que devo fazer? devo ir?’ Eu disse: ‘Você deve ficar com o Ken, ter mais um ano de aprendizado, eu não vou ficar aqui para sempre.'”

Mosport, ’73.

Em Watkins Glen, Tyrrell assinou com Scheckter em 1974. Embora Stewart e Crombac neguem, Ken insiste que François sabia que Jackie estava prestes a parar. Tyrrell disse a Cevert naquele fim de semana que ele herdaria o lugar de Stewart, com Jody como companheiro de equipe? Certamente, se o francês tivesse ouvido falar do acordo com Scheckter ficaria perturbado, talvez menos se tivesse ficado claro que Jackie estava desistindo e ele seria o número um. Mas por qualquer motivo, se sentia num dia inspirado. “Ele estava confiante”, diz Jo Ramirez, “Sua primeira vitória foi lá e ele queria repetir o feito. Acho que ele tomou a decisão de conquistar a pole e vencer a corrida. O número seis foi provavelmente outra coisa que contribuiu para sua determinação na vitória, sob a sensação de que tudo ia dar certo.” E Ken Tyrrell: “Antes de sair, ele disse: ‘Vou pôr este carro na pole agora!’, e ele saiu para fazer isso… mas perdeu o controle.”

O acidente foi, sem dúvida, não só um dos piores momentos naquele período das corridas como também um dos mais terríveis de todo o esporte a motor. Houvera um briefing particular entre o campeão Stewart e seu pupilo Cevert e o tema de destaque nessa conversa foi a escolha de marcha para se atacar os famosos Ésses de Watkins Glen. Cevert sugeria o uso de uma marcha menor pois isso deixava o carro com boa energia na subida para ser mais rápido da reta que viria a seguir. Mas Stewart recomendava uma marcha mais elevada para amainar o motor visto que o trecho dos Ésses era muito ondulado; para diminuir o risco de perder o carro num trecho muito perigoso, era melhor sacrificar a energia em troca de ter um carro mais tranquilo naquela parte do circuito. Cevert escolheu arriscar-se em seu próprio macete.

O francês havia cravado o quarto melhor tempo até então e estabeleceu em sequência as suas duas voltas mais rápidas antes de seu acidente fatal, ocorrido a menos de sete minutos do final daquela sessão de treinos. Testemunhas disseram que ele simplesmente exagerou: acelerando demais perdeu o carro no meio dos Ésses, bateu numa barreira à direita da faixa de asfalto, atravessou a pista prestes a capotar e violentamente espatifou contra a barreira esquerda. O choque foi tão forte que a barreira foi parcialmente arrancada. Nisso, a lamina solta da barreira agiu como uma imensa lança apontada justamente contra a parte lateral do cockpit, atingindo em cheio o corpo do piloto. Com a bandeira amarela a ser agitada no local, os pilotos dos carros que passavam por aquele trecho lentamente, ao verem o estado que ficou barreira, os próprios destroços do Tyrrell e um princípio de incêndio que começava, foram parando na tentativa de ajudarem no resgate do piloto. O primeiro homem a chegar na cena do acidente foi Scheckter. O que ele viu coloriu para sempre sua atitude em relação às corridas; o pobre François estava além de qualquer possibilidade de ajuda. “Me lembro de tentar alcançar os cintos dele mas assim que me abaixei vi que ele não teve chance.” Na sequência, vieram Amon (que pilotava um terceiro Tyrrell naquele fim de semana), Hailwood, Pace, Emerson, Peterson, Ickx e Stewart. E fotos do rescaldo mostram a cena desoladora, com pilotos ainda de capacete, mas com uma linguagem corporal a delatar uma visão horrorosa.

Assim morreu o delfim.

A Comoção

Stewart sob o profundo choque de ver o estado em que se encontrava seu amigo, teve que virar as costas, entrar de novo no seu Tyrrell e voltar pros boxes. “Até hoje me sinto atormentado por isso. Sinto que devia ter ficado lá com ele.” Um veterano jornalista disse que sabia que tudo estava acabado para François quando viu Jacky Ickx chegar aos boxes e percebeu que o piloto estava chorando; o belga, notara ele, não era o tipo de sujeito que chora. A biografia de Halle (“Cevert – Um Contrato Com a Morte“, em inglês e francês) documenta que o mecânico Jo Ramirez, chorando ao lado da pista, disse: “Agora há pouco!… faz apenas alguns minutos que ele me disse: ‘Atente aos meus tempos, que eu vou baixá-los. Você percebe que eu estou dirigindo Tyrrell número seis, chassi número seis, número de motor 66 e que este é o seis de Outubro? É o meu dia!…”

A outra ironia sobre a carreira de Cevert foi que o mesmo circuito em que ele conseguiu sua única vitória na F1, foi também o que reivindicou sua vida. Ele se tornaria o único piloto a morrer em um dos carros da equipe Tyrrell. Grande foi o impacto pessoal de tal perda na vida do boss britânico: “François tornou-se parte de nossa pequena família”, diz Ken. “Seu entusiasmo e seu caráter eram tais que ele com certeza iluminou imensamente as nossas vidas.”

“Ele sempre foi extrovertido e havia um brilho nele.” continua Ken. “Tive a sorte de não ter sofrido a morte de um jovem membro de nossa família mais próxima, mas a perda de François foi pra mim algo bem perto de perder um filho. Nas semanas seguintes ao acidente eu muito seriamente considerei deixar o automobilismo. Mas o senso-comum prevaleceu, suponho, e espero que desde então tenha contribuído para o crescente nível de sobrevivência do moderno carro do Grande Prémio. A morte de François, no entanto, mudou a maneira como lidei com os pilotos. Nunca mais consegui deixar de manter o relacionamento pessoal mais à distância.”

Jackie Stewart, num gesto de respeito à memória de Cevert, tomou a decisão quase imediata de não disputar a corrida do dia seguinte – que seria seria seu 100º GP. A Tyrrell inteira seguiu seu exemplo, empacotando tudo para voltar à Europa.

Eu estava esperando pelo meu segundo bebê, diz Jacqueline, e é por isso que eu não estava na América. Eu não estava bem e não queria viajar. Estávamos fora quando meu irmão Charles ouviu o telefone tocar e alguém na linha simplesmente dizer ‘François está morto‘”. Chegamos em casa e ele estava terrivelmente chocado. Parecia impossível. Tentei chamar Jean-Pierre [Beltoise] em Watkins Glen e, meia hora depois, ele ligou.

François Cevert foi velado na Catedral de São Pedro em Neuilly-sur-Seine e sepultado no dia 11 de Outubro no Cimetière de Vaudelnay.

Stewart, benze o caixão durante o funeral de Cevert em Saint-Pierre de Neuilly.

A Conclusão

Derek Gardner havia concebido um grandioso canhão na Tyrrell 006/2. Mas o preço da maior velocidade veio com um duro acréscimo: ele não era um carro indulgente. A curta distância entre eixos daquela Tyrrell acabou por colaborar com a sua reputação de “carro agitado” e difícil de dirigir. Isso certamente contribuiu para o desaparecimento de Cevert. “O acidente de François foi horrível”, relatou Ken Tyrrell. “Estava perto do final do último treino e ele estava confiante de que poderia alcançar a pole position. Justo em sua última tentativa, ele perdeu o controle e acertou o guard-rail. É claro que parte da tragédia é que ele quase certamente teria sobrevivido – sairia andando daquele acidente – se estivesse em um carro de F1 moderno. Isso é progresso”. Bastou o solavanco das ondulações na pista, a meio dos traiçoeiros Esses do Glen, para perturbar o equilíbrio daquela 006,  pondo-a na rota do desastre. “Após as ondulações”, continua Tyrrell, “estava o guard-rail onde a pista de corrida passava por sobre um túnel de entrada para o interior do circuito. Havia uma barreira de aço dos dois em cada lado da pista – não havia margem para erro.”

O acidente foi causado por um erro do piloto? “O carro se desgarrou por passar sobre um solavanco” diz Stewart, “No dia em que ele morreu eu tive o mesmo problema, e por receio eu estava contornando aquela sequência de curvas uma marcha acima da que François estava usando. Não tenho certeza de que eu estava fazendo o contorno do jeito mais rápido, mas como o carro estava muito nervoso, decidi que, se o colocasse na quinta marcha em vez da quarta, aquela série de curvas ficava mais suave. Por isso estou totalmente convencido de que a colisão de François foi consequência da reação do carro, que de repente o tornou um passageiro, batendo primeiro na barreira do lado direito e se projetando contra a barreira do lado esquerdo, e esse golpe final foi o que causou todo o estrago.” A julgar por essa análise de Stewart, o acidente de François Cevert foi mais por um erro de avaliação do que por um erro de pilotagem. Mas Stewart conclui: “Poderia ter acontecido inclusive comigo: com a velocidade estimada para aquele trecho, se eu passasse sobre o solavanco que ele passou, ainda que numa marcha maior, não haveria possibilidade de correção e só Deus sabe se meu destino não seria diferente do destino de François. Portanto, acho que foi mais pela reação do carro do que propriamente um erro do piloto.

Comemorando a vitória no Geln, ’71.

O Potencial em Cevert

Ken Tyrrell avaliava com extremo cuidado a maneira como investia o dinheiro da equipe e não era lhe era agradável a possibilidade de assalariar um piloto sem competência para vencer. Que François Cevert fosse sua aposta para substituir alguém como Jackie Stewart, por si só, já indica que tipo de esperanças cirandavam em torno do jovem francês. Com o acidente no Glen, tal esperança se refletiu na imensa comoção que seguiu à sua morte, comoção que ultrapassou inclusive as restrições do mundo automobilístico. O esporte a motor dava adeus à sua promessa enquanto o mundo dava adeus à sua incrível graça e personalidade; àquele rosto e aquela voz, sem dúvida, eram dos mais conhecidos e apreciados naquele tempo. Certamente fariam muita falta.

Com sua morte, seu talento foi posto como matéria de especulação. Para os pragmáticos, ter aceitado a condição de segundo pode depor contra a real importância de François Cevert como piloto. Em relação à quantidade de segundos lugares conseguidos por François (particularmente em ’73), Jackie diz: “Tenha em mente que naquele ano eu estava no auge da minha carreira. Para ele competir comigo naquela época, seria como eu tentar competir com Jim Clark em 1968. Acho que eu poderia ter vencido Jimmy numa corrida em condições adversas, mas não poderia ter tirado o título dele simplesmente porque ele sabia demais. Em ‘73, eu era quem sabia demais. ” Ken Tyrrell concorda com a avaliação de Stewart da capacidade de François para levar o título em 74. “Esperávamos que François tivesse um desempenho melhor que o de Jody (Schekter). Em 1973, o Tyrrell-Ford 006/2 venceu cinco corridas e teve oito segundos, mas nem Jody nem Patrick (Depailler) poderia chegar a um acordo com esse carro e nós tivemos que construir um carro mais indulgente para atender esses dois pilotos em seus anos de formação. O 006/2 era um carro de muito sucesso, mas exigia pilotos de alto padrão – já formados – para tirar o melhor proveito dele. De forma equivalente, você pode ter um carro que é confortável de dirigir e o piloto pode se sentir muito confiante nele. Mas pode não ser um carro tão rápido.

“Isso é o que eu senti”, continua Jackie. “Senti no meu último ano que François poderia ter me derrotado em mais de uma ocasião. Quando eu digo que ele foi mais rápido, não quer dizer que ele teria feito isso por toda a temporada, ele não teria vencido o campeonato. Penso que eu já sabia como controlar o ritmo de uma corrida, e que naquele ano nunca fui mais rápido do que precisava ir. Obviamente ele era mais jovem e, portanto, sua exuberância poderia levá-lo a ser mais rápido. Eu gostava disso nele, e é pra mim uma grande emoção ter feito parte de sua experiência de aprendizado. Claro que, sob a perspectiva de me aposentar, não havia nada que eu soubesse e sentisse que não devia passar para ele. Não me furtei a isso. Eu o guiei ao redor de cada pista de corrida, andei com ele ao meu lado, o levei em um carro de rua e ele me seguiu em um carro de Fórmula 1. Ele sabia tudo o que eu sabia e quando você é jovem, e espirituoso, você não pode sempre consumir todas as informações. Mas se você está fazendo isso por dois ou três anos, aprende como essa informação pode ser introduzida na máquina progressivamente, e claramente eu estava ciente disso. Ele se desenvolveu muito bem.”

Considerando os numerosos segundos lugares que Cevert marcou em sua carreira, com apenas uma vitória em um Grande Prêmio, ele foi um vencedor no sentido clássico? “Ele foi sim um vencedor”, diz Stewart. “Acredito que ele teria vencido o campeonato em 1974. O carro (Tyrrell 007) era muito bom. Eu sei disso porque eu fiz parte de seu desenvolvimento. Claramente ele teria mostrado o carro em uma luz melhor do que Jody Scheckter porque Jody estava chegando em sua primeira temporada completa. Eu não acho que Jody estava pronto para vencer corridas na época.” O caso é que Scheckter, disputou as três primeiras corridas do campeonato de ’74 com aquela difícil Tyrrell 006/2 e ficou evidenciado que o sul-africano realmente não conseguiu lidar bem com o carro. Mas assim que pôs as mãos na novaTyrrell 007, mesmo com as limitações de um novato, pontuou nas oito corridas seguintes, inclusive vencendo em duas; acabou perdendo o título só na rodada final e por sete pontos. Com François no comando, não exige muito raciocínio sugerir que ele teria conquistado o tão disputado título, e provavelmente mais cedo do que Watkins Glen.”

Após a morte de François, a França teria que esperar mais de dez anos até se alegrar com o triunfo de um francês no Campeonato Mundial. Coincidentemente, como se o destino tentasse curar uma ferida, o dia em que a França eventualmente coroou seu primeiro campeão de F1 em Alain Prost (em Brands Hatch-1985), também foi reservado para o dia 6 de Outubro.

O Mistério da Vidente

Jô Ramirez lembra claramente o que houve naquela trágica manhã de sábado: “Ele me disse: ‘Você notou que hoje é dia 6, eu piloto um Tyrrell 006 nº 6 e atrás de mim tenho um Ford Cosworth cujo número de série é 066!… Hoje é meu dia!…

A complementar essa notória coincidência com o número 6 na vida de Cevert, em sua biografia oficial (escrita por Jean-Claude Halle), está documentado um episódio estarrecedor, creditado ao ano de 1966, quando ele tinha 22 anos. Sua namorada Nanou van Melderen havia feito uma visita a uma velha vidente cerca de sete anos antes. Na ocasião, em consulta ao espíritos, a médium havia previsto que na vida da jovem aconteceria um relacionamento com um rapaz que seria lindo como um príncipe. Ao perceber, já em companhia de François, que a predição da sorte fora certeira, ela voltou naquele 1966 para ver como seria a sorte de Nanou agora que o príncipe estava evidenciado. Nanou levou uma foto de François para o encontro. A vidente viu que o futuro daquele rapaz da foto seria brilhante e que em conta do sucesso dele haveria uma ruptura no relacionamento dos dois namorados. A jovem apaixonada não conseguiu guardar o segredo para si e disse ao namorado todo o oráculo que havia ouvido, insistindo para que François fosse também ver a cartomante. Quando ele, naquele mesmo 1966, depois da muita insistência de sua jovem amante, concordou em ir sozinho à tenda da velha senhora, que sem saber das conexões entre o jovem que estava a sua frente e Nanou contou a Cevert exatamente o que ela já havia dito à sua namorada.

“É uma história verdadeira”, garante Jacqueline, a irmã dileta do piloto. “Nanou costumava frequentar uma médium. Como piada, François decidiu ir. A mulher disse que ele teria um grande sucesso, e que muitas coisas boas iriam acontecer.” Mas houve uma revelação surpreendente que veio como um aviso a François. Nanou também ouvira na vez dela, mas preferiu não contar isso a ele. “A mulher de repente parou de falar”, diz Jacqueline. “E ela disse que François não iria ver seu aniversário de 30 anos. Ele riu, porque ele não acreditava naquela mulher. E depois brincou com Nanou dizendo: ‘Nanou, em todo contrato a morte está prevista. Tranquilo! Antes dos trinta serei Campeão do Mundo.’ “

(…)

No ano seguinte ao acidente à morte de François, Nanou Van Malderen contou pela primeira vez a história da visita de Cevert a uma médium em uma introdução à biografia, “Um Contrato Com a Morte”. “Houve uma coisa estranha, diz Jacqueline. “No último ano de sua vida, 1973, ele sempre foi o segundo. Ele teve um bom sucesso. Um dia eu estava com minha mãe e o encontramos na sua casa em Neuilly. Ele estava triste e nervoso, e minha mãe disse “Não há problema, tudo está bem. Você é sempre o segundo, isso é fantástico”. François ficou um pouco aborrecido: “Sim, sou segundo, mas não serei Campeão do Mundo este ano”. Ficamos muito surpresas e ela disse: “Ah, mas será no próximo ano”. Depois que ele morreu nós pensamos sobre isso, foi tão estranho – por que ele disse aquilo? Será que ele finalmente acreditava na vidente?

“Após a morte dele, minha mãe queria ver essa mulher. Ela tirou uma foto de François quando ele tinha 12 anos – foto em que não dava para reconhecê-lo – e deu esta foto para a mulher, dizendo ‘Fale comigo sobre ele’. A mulher que era muito, muito velha, colocou a mão na foto, fechou os olhos e disse: “Eu vejo muito sucesso, muitas coisas boas e fantásticas, ele é reconhecido por todo o país…” Então ela parou de falar e abriu os olhos. Ela estava tão surpresa quanto penalizada. Ela olhou para minha mãe e disse: ‘

_ Ele está morto.

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(…)

Um epílogo mais ameno foi vivenciado no luto da família Stewart. Algum tempo antes, ao conversarem casualmente sobre os risco da profissão de piloto, François disse numa espécie de gracejo carinhoso que, se acontecesse d’ele morrer, ele daria um jeito de dar um sinal de que, fosse onde estivesse, estaria bem.

No Dezembro daquele 1973, o desaparecimento do jovem delfim ainda estava muito recente. Numa tentativa de melhorar o clima na sua gelada casa suíça, o pequeno Mark Stewart (contando na época com cinco anos), pediu à sua mãe Helen ‘algum dinheiro para comprar um presente de Natal para alegrar o papai‘. Tocada, Helen realizou o pedido do filho e levou-o às compras na cidade de Nyon. Ele entrou em uma loja de discos enquanto a mãe esperava do lado de fora e selecionou um disco de vinil baseado puramente na beleza da capa do álbum. Depois de embrulhado o presente, ele cuidadosamente o escondeu numa mochilinha enquanto voltavam para casa.

Na manhã de Natal, Jackie e Helen desembrulharam o presente. E era um disco da Sonata para Piano Nº8 em dó menor de Beethoven  a Sonata Patética que François tanto amava e executava no piano com maestria.

Assim, um certo consolo chegou ao coração da família Stewart…

 

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2 Respostas

  1. Julio Cesar Mauro

    Fantástico… Como o próprio esporte à motor… E como dizem os mais antigos, “no creo em brujas pero que los hay, gay…”
    Aprendi a gostar de fórmula um no emblemático ano de 1973, um dia após o meu décimo terceiro aniversário, no dia do último pódio de Cevert e a última vitória de Stewart… Descanse em paz Delfim!

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