História dos Circuitos da Fórmula 1 – Anderstorp

Boa noite amados, a nossa mais nova e encantadora viagem que nós faremos por uma pista que já esteve em calendários anteriores da Fórmula 1, será por uma agradabilíssima pista das maravilhosas terras nórdicas, mais precisamente o circuito que nós iremos conhecer é o Scandinavian Raceway, o qual também conhecido como Anderstorp, pelas pessoas que estão mais habituadas em lembrar de autódromos que passaram pela categoria na dourada década de 1970. De passagem efêmera pelo mundial, ainda sim o circuito situado próximo a comuna de Gislaved, na Suécia, reservou alguns dos grandes momentos da década e ficou marcado especialmente por conta das multidões apaixonadas que iam ao circuito, torcer por seus mais proeminentes pilotos locais, no caso a talentosa dupla Ronnie Peterson e Gunnar Nilsson. Agora, nós iremos imediatamente conhecer tudo o que o “pântano salgado” possui de melhor.

História

O empresário sueco Sven “Smokey” Åsberg (1918-1992) foi um dos principais idealizadores da pista de Anderstorp. Elegantes ternos, feições corpulentas, óculos de grau, personalidade bem humorada e charutos eram a marca registrada do excêntrico empreendedor e administrador do circuito.

A história do Scandinavian Raceway começou, quando no ano de 1965, três importantes e excêntricos empresários da cidade sueca de Anderstorp, chamados Sven Åsberg, Åke Bengtsson e Bertil Sanell, os quais também eram pilotos amadores de corridas automobilísticas, planejaram após tomarem um longo café da manhã em uma cafeteria da cidade, construir um autódromo que servisse como base para alguns testes privados da equipe de competições Team Mosarp, equipe esta que era de propriedade dos três homens suecos.

Inicialmente Åsberg havia sugerido um traçado mais modesto que possuiria em torno de 1.500 km de extensão, mas Bengtsson com grande visão empreendedora e um apaixonado por aviação, logo sugeriu um traçado maior e que conciliasse o percurso do circuito com uma pista de pouso para aviões de pequeno porte, permitindo assim, uma rentabilidade maior ao inédito empreendimento e de quebra, isso não deixaria a pequena cidade de Anderstorp tão isolada dos grandes centros da Suécia.

O traçado do circuito de Anderstorp foi projetado pelo engenheiro Holger Eriksson e teve uma grande contribuição do laureado piloto sueco Jo Bonnier (foto). A corrida de inauguração coincidentemente foi vencida pelo próprio Bonnier no ano de 1968.

O traçado projetado por Eriksson e Bonnier tinha 4.025 km de extensão e foi construído sobre uma região pantanosa, a qual era bastante afastada da pequena e isolada cidade sueca de Anderstorp.

Logo, assim sendo, a ideia de construir apenas uma pequena pista de testes para o Team Mosarp, amadureceu para outra ainda mais ambiciosa, no caso a de construir o mais moderno autódromo de todo o país visando sediar as principais categorias de automobilismo do mundo. No ano de 1966, enfim todos os recursos financeiros necessários para a construção da pista foram arrematados, incluindo a compra do terreno situado em uma região pantanosa da cidade, onde a mesma seria construída.

O engenheiro Holger Eriksson e o renomado piloto Joakim Bonnier, ambos suecos, foram contratados para desenhar o traçado do novo autódromo. O percurso projetado pelos dois, era bastante sinuoso e técnico, sendo recheado com longas retas, curvas de raio longo ligeiramente inclinadas e como tempero especial, ainda incluía a utilização de uma parte da pista de pouso de aviões solicitada por Åke Bengtsson, além disso, o traçado de 4.025 km de extensão possuía uma outra excentricidade a mais para complicar a vida dos pilotos, pois por conta da reta dos boxes ser muito curta e estar fora dos padrões exigidos pela FIA para sediar provas internacionais, a largada sempre era dada em um outro trecho retilíneo do circuito.

Após as obras da novíssima pista terem sido concluídas, foram realizadas algumas corridas de ensaio, as quais visavam oferecer um melhor treinamento aos comissários de corridas, contudo, a inauguração oficial ocorreu somente no dia 16 de junho de 1968, quando o Scandinavian Raceway sediou uma prova de Esporte-Protótipos vencida pelo próprio Bonnier. Depois de ter constatado o sucesso da inauguração da inédita pista sueca, Åsberg logo lançou uma polêmica declaração para a imprensa, onde afirmou com toda a certeza, de que a nova pista iria sediar uma corrida de Fórmula 1 dentro de um prazo estimado de cinco anos.

A princípio, os jornalistas deram de ombros em relação as efusivas declarações de Åsberg, mesmo assim o simpático empreendedor, cujo apelido era “Smokey” por tradicionalmente ser visto fumando os mais caros charutos importados possíveis, não desistiu de colocar seus planos em prática e logo começou a preparar o circuito de Anderstorp para receber outras duas importantes categorias mundiais de desportos motorizados da época, no caso a F5000 e o Campeonato Mundial de Motociclismo.

Ainda se esforçando ao máximo para tornar o sonho de sediar uma corrida da Fórmula 1, a mais absoluta realidade, Åsberg promoveu no ano de 1972, a primeira longa reforma em relação ao apertado pitlane do circuito sueco, agora a nova entrada dos boxes se situava mais distante da curva Gislaved. Ainda naquele mesmo ano, o excêntrico “Smokey” viajou para assistir ao Grande Prêmio da Bélgica, lá ele visava se encontrar com representantes do alto escalão da FISA – Federação Internacional de Automobilismo Esportivo – para acertar os termos de uma possível corrida de Fórmula 1. O resultado não poderia ter sido melhor, o fato de o país ter revelado no final da década de 1960, grandes talentos do automobilismo como Ronnie Peterson, Torsten Palm, Reine Wisell, Conny Andersson e Gunnar Nilsson por exemplo, ajudou a fazer a sorte enfim sorrir para Sven.

Na foto, o cartaz para a corrida de estreia de Anderstorp na Fórmula 1, a qual foi realizada em 1973. O anúncio surpreendeu alguns incrédulos jornalistas, que haviam duvidado da promessa feita por Sven “Smokey” Åsberg cinco anos antes, sobre a possibilidade de que a pista sediaria o primeiro Grande Prêmio da Suécia da história da categoria.

Após desembarcar no país, um entusiasmado e eufórico Sven “Smokey” Åsberg, afirmou em uma coletiva de imprensa, lotada dos mais céticos jornalistas suecos, que o Scandinavian Raceway, situado nos pântanos salgados da pequena cidade de Anderstorp, iria enfim sediar o primeiro Grande Prêmio da Suécia da história da Fórmula 1, no dia 17 de junho de 1973. A promessa de Sven, estava finalmente cumprida dentro do prazo original de cinco anos estipulado por ele, todos nas tribunas de repórteres ficaram simplesmente boquiabertos com esta surpreendente revelação do estrambólico benemérito e administrador do circuito.

Apontado como o principal motivo para a Fórmula 1 ter desembarcado em Anderstorp, o piloto da casa Ronnie Peterson até chegou a marcar a primeira pole-position da história da pista na categoria…

Mas a primazia de ser o primeiro vencedor coube ao neozelandês Denny Hulme da McLaren. Essa corrida por sinal, marcou a primeira vitória da lendária McLaren M23.

Como não poderia deixar de ser, os apaixonados adeptos de corridas de carros do país, lotaram a pista para assistir ao primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1 disputado em território sueco, os quais trataram de fazer uma linda festa para todos os pilotos locais, em especial para Ronnie Peterson que era considerado o talento mais proeminente daquela maravilhosa geração de pilotos da Suécia e não poderia ser diferente, muitos afirmam que o sucesso explosivo de Ronnie foi o principal fator determinante que teria convencido a FISA a finalmente alocar uma etapa para o gélido país escandinavo.

A corrida de estreia da Fórmula 1 na pista de Anderstorp, havia sagrado o neozelandês Denny Hulme que estava a bordo de sua McLaren M23, como o grande vencedor do inédito Grande Prêmio da Suécia, Peterson que havia feito a primeira pole-position, chegou apenas na segunda colocação. Coincidentemente, esta festiva corrida registrou ainda, a primeira vitória do longevo e lendário carro da equipe britânica na categoria. Os únicos pontos negativos citados pela opinião pública, teriam sido em relação as precárias instalações para os profissionais de imprensa e a falta de bons hotéis ou pousadas na região do circuito.

Em sua curta passagem pela Fórmula 1, Anderstorp foi palco de momentos marcantes para a categoria. Tais como a primeira e única vitória de um carro de seis rodas, conseguida pela Tyrrell P34 do sul-africano Jody Scheckter na edição de 1976…

A primeira vitória tanto do francês Jacques Laffite, quanto da equipe Ligier em 1977…

E a única vitória da polêmica Brabham BT46B “Fan Car”, conseguida através do austríaco Niki Lauda, na derradeira edição de 1978.

Durante a curta estadia de Anderstorp e do Grande Prêmio da Suécia no calendário da Fórmula 1, houveram alguns acontecimentos bastante memoráveis para a categoria, como por exemplo a primeira vitória de Jody Scheckter e de um piloto sul-africano em 1974, o último ponto conquistado por Graham Hill também nesta mesma edição, a única vitória de um carro de seis rodas conseguida através da inovadora Tyrrell P34 na edição de 1976, o primeiro triunfo de Jacques Laffite e da equipe Ligier em 1977, além é claro da única prova vencida pela polêmica Brabham BT46B e o primeiro pódio tanto do italiano Riccardo Patrese, quanto da equipe Arrows, ambos os feitos ocorridos na derradeira edição de 1978.

O ano de 1978, marcou a despedida não somente de Anderstorp, como do Grande Prêmio da Suécia do calendário da Fórmula 1. Apos as mortes de Ronnie Peterson e Gunnar Nilsson, ambas no fim daquele mesmo ano, houve uma súbita perda de interesse dos adeptos suecos em relação a Fórmula 1, isso fez com que os patrocinadores não quisessem mais financiar a etapa, o que ocasionou o cancelamento da corrida que seria realizada em 1979.

Após as trágicas mortes dos heróis locais, Ronnie Peterson, vitimado por um acidente na largada do Grande Prêmio da Itália e Gunnar Nilsson que perdeu sua batalha contra um câncer testicular, ambas no ano de 1978, o interesse dos suecos por corridas automobilísticas acabou diminuindo drasticamente e embora a corrida de 1979 estivesse inicialmente garantida no calendário da Fórmula 1, os patrocinadores da etapa sueca retiraram os polpudos investimentos que ainda mantinham o circuito de Anderstorp na categoria, devido a esse conjunto de fatores, a pista do “pântano salgado” nunca mais tornou a sediar uma prova do mundial. Desde então, Anderstorp sediou outras categorias de caráter internacional com relativo sucesso até meados da década de 1990, foi quando os tempos gloriosos se encerraram de maneira definitiva, já que nos dias atuais o calendário do Scandinavian Raceway se resume apenas a algumas categorias regionais, a grande maioria delas de carros de turismo.

Estatísticas

Tabela contendo todos os vencedores das corridas disputadas em Anderstorp. Niki Lauda e Jody Scheckter dividem o posto de maiores vencedores entre os pilotos com duas conquistas cada um, enquanto a Tyrrell é a soberana entre as equipes, também com duas vitórias. (Fonte: GP Expert)

Volta Recorde: 1:22:058 (Mario Andretti, Lotus-Ford Cosworth 79, 1978) – Qualificação.

Maior Vencedor (Pilotos): Niki Lauda (Áustria) e Jody Scheckter (África do Sul) – 2 vitórias.

Maior Vencedor (Equipes): Tyrrell (Reino Unido) – 2 vitórias.

Linha do Tempo

Fato raro entre os circuitos existentes em todo o mundo, o traçado da pista de Anderstorp permanece inalterado desde que foi inaugurado, no ano de 1968, as poucas mudanças foram realizadas apenas no pitlane. O autódromo possui 4.025 km de extensão.

Características

Criticado por alguns fãs, amado por outros adeptos do esporte a motor, o traçado de Anderstorp se destaca por mesclar curvas de raio longo e curvas de 90º bastante fechadas com uma série de longas retas. Atentem-se para o fato de que a largada não era dada na reta dos boxes, mas sim em outro trecho retilíneo localizado logo após a curva Laktar.

  • Startkurvan: Curva inclinada de 180º, a qual é tangenciada para a direita, é um trecho onde devido ao fato de possuir uma acentuada inclinação e uma largura bastante generosa, pilotos com mais recursos técnicos podem tentar contorná-la sem qualquer tipo de redução de velocidade, embora o tangenciamento recomendado seja mesmo o de passar sobre este trecho a uma velocidade média e de preferência milimetricamente dosada, antes de poder retomar a aceleração plena.
  • Opel: Assim como a curva anterior, essa é uma curva de 180º que também possui uma ligeira inclinação, mas as diferenças terminam por aí, pois é um trecho tangenciado para a esquerda, dotado de um leve aclive e como a angulação é um pouquinho mais fechada, ele não permite as tentativas de tentar contorná-lo sem reduções de velocidade, as quais certamente a Startkurvan normalmente aceitaria.
  • Hansen: Se trata de uma simples curva de 90º, munida com uma angulação mais aberta, tangenciada para a esquerda e cuja saída se dá em um imperceptível trecho em declive. Neste local, o recomendado a se fazer é apenas pisar no freio e colar o máximo possível rente a zebra interna desta curva.
  • Karusell: Um dos melhores setores da pista de Andertorp, a curva Karusell é tangenciada para a direita, é dotada de uma razoável inclinação, um imperceptível aclive e possui angulação de 180º, mas diferente dos trechos Starkurvan e Opel, o raio é bem mais generoso, o que permite que acurva seja contornada com aceleração total dependendo da eficiência aerodinâmica de cada carro, é claro.
  • Gislaved: Curva de 90º contornada para a esquerda, a Gislaved é o setor mais lento de todo o circuito, por isso ela necessita de um preciso acionamento de freios e de uma redução muito brusca de velocidade, para não perder o ponto de freada ideal. É a curva que leva a pequena reta onde se situam os boxes e pitlane.
  • Södra: Mais uma curva inclinada de 180º, tangenciada para a direita, a Södra é dotada de uma sutil e delicada subida e como ela possui uma largura razoável, este setor também permite os improvisos de pilotagem que geralmente são aceitos na Startkurvan, isto é, tentar contornar esta curva sem qualquer tipo de redução, embora não seja recomendado fazer isso com tanta frequência.
  • Flight Straight: Sem dúvida alguma, a maior reta de todo o circuito é a grande atração de Anderstorp, seja por fazer com que os carros atinjam a maior velocidade entre todos os setores, a sua gigantesca largura que gera muitas guerras de vácuo e trocas de posições entre os pilotos ou por estar situada na famosa pista de pouso de aeronaves idealizada por Åke Bengtsson.
  • Norra: Uma simpática e delicada curva de 90º tangenciada para a direita que possui um raio mais aberto, contudo, como uma parte dela é praticamente integrada junto a Flight Straight, é possível contorná-la em altíssima velocidade. O herói local Ronnie Peterson tinha um macete bastante engenhoso para ganhar mais tempo em uma volta rápida neste trecho, o piloto carinhosamente chamado pelos fãs da Fórmula 1 pelo apelido de “sueco voador”, utilizava-se da técnica conhecida como “drift”, tática esta que consiste de derrapagens controladas, que deixam as rodas dos carros em uma incrível sincronia, cujo objetivo, é o de deslizar de uma maneira muito sensível pelas curvas de algum circuito.
  • Läktar: A Läktar é uma curva com um raio pouca coisa mais fechado que o da Norra, mas se trata de uma outra curva de 90º tangenciada para a direita, a qual possui uma beleza estética igualmente formidável, já que ela é dotada de uma leve inclinação e como a zebra interna tem um tamanho generoso, ela pode ser contornada em alta velocidade do mesmo jeito, sem maiores problemas. Peterson também utilizava a técnica do “drift” para se sair melhor neste setor, o que obviamente proporcionava para os espectadores presentes no autódromo, uma das visões mais encantadoras e espetaculares das corridas disputadas em Anderstorp.

Onboard em Anderstorp

Vá de carona com a Lotus 79 de Mario Andretti, em uma compilação de várias voltas onboard realizadas na derradeira prova de 1978.

Muito bem amados, chegamos ao fim de mais um proveitoso passeio por uma pista que já esteve no calendário clássico da Fórmula 1, desta vez nós desvendamos todos os encantos do traçado de Anderstorp, a pista que nasceu em cima de uma das muitas regiões pantanosas da Suécia e a qual foi palco de maravilhosas memórias para os apaixonados adeptos de automobilismo do país. Espero muito que todos os leitores tenham gostado e quero desejar um abraço bastante caloroso nos corações de todos!

Att Bárbara Maffessoni.

 

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2 Respostas

  1. Gláucio

    Luciano do Valle cita em uma das suas entrevistas principalmente no bola da programa da ESPN Brasil o fato de narrar a corrida da Suécia e Anderson em cima de uma árvore no qual ele com dois telefones narrou a corrida e o resultado que os braços dele ficou paralisado. Velhos tempos da verdadeira fórmula 1.

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