1960 Mairesse em Spa.

Memorial a Willy Mairesse

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“O que é o homem, esse semideus louvado! Não lhe faltam as forças precisamente no momento em que mais precisa delas? E quando ele toma vôo na ventura, ou afunda na tristeza, não será ainda aí limitado à força e sempre reconduzido ao sentimento de si próprio, ao triste sentimento de sua pequenez, justo quando contava perder-se na imensidão do infinito?” (JOHANN WOLFGANG VON GOETHE em ‘Os Sofrimento do Jovem Werther’)

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Em Busca de Consolo

Na tarde de 7 de Setembro de 1969, o mundo do esporte a motor foi sacudido por uma disputa eletrizante no GP da Itália em Monza: Jackie Stewart com sua Matra-Ford vencia por uma ínfima margem a Rindt, Beltoise e McLaren, e pela primeira vez na história da Formula 1 uma corrida era decidida por uma bandeirada com quatro carros no mesmo segundo. Típicas em Monza, as disputas épicas comumente terminavam com os protagonistas principais sendo arrebatados pela multidão que invadia a pista; geralmente, o vencedor era carregado nos ombros dos fãs desde o cockpit até a tribuna. Essa mostra de grandeza e emoção que envolvia o espetáculo em torno do esporte naquele tempo havia sido vivenciada no limite por Willy Mairesse. E a tal ponto essa febre se entranhou na índole do piloto que, uma vez sem ela, a vida se tornou para ele um fardo pesado demais para suportar.

História particularmente trágica entre as muitas tragédias que contam aquele período do automobilismo, é mesmo dolorido se deparar com os detalhes mais conhecidos dessa biografia hoje em dia. Como se confrontar com a constatação do pouco legado dessa fascinante figura e não achar injusto que um homem com tamanha garra tenha vencido pouco e sucumbido ao desespero por se ver impossibilitado de exercer aquilo que mais amava?… ele tirou sua própria vida só por não poder mais ser um piloto de corridas. Lembra-nos que grande é um ofício quando o encaramos por missão e que a valorizar a vida está o trabalho que escolhemos para exercê-la… ou o trabalho que nos escolheu para valorizar a nossa vida e as demais para nós. Se deixarmos, Willy Mairesse é um espelho para o tamanho da nobreza em cada um de nós e enxergá-lo, desperta-nos para a empatia e o melhor, o que há de mais alto no ser humano – a emoção da responsabilidade que temos uns com os outros e consequente compaixão pela sina inevitável do homem.

Seu destino é desses que dão um nó na garganta. A necessária pesquisa e coleta para esse texto, mexeu de uma maneira nova com o colunista, pondo-o às voltas com a dor de um réquiem digno de fazer calar boa parte do seu  senso crítico, de modo que uma nota estranha, de pedido de indulgência, é aqui necessária. Não pudemos deter o tom de uma confissão pessoal emocionada, de modo que cremos esse texto ser direcionado não para leitores estritos, adeptos de fatos frios e dados biográficos claros. Mas para vivenciar momentos que fujam do ordinário, nesse caso, convidamos você leitor a abraçar por um momento o que há de mais sublime na nossa pequenez, o devaneio que não se absorve de números e conquistas cruas; pois para reviver Willy Mairesse através de um verdadeiro memorial, uma outra capacidade cognitiva deve ser acariciada, uma que não seja propriamente a que alenta os apuradores de estatística. Mairesse é rico na medida em que se busca a arte por trás do volante, e o gabarito da própria vida como grandeza. Sua intensidade é, mais que tudo, a súmula de sua vida e o fator sem o qual é impossível vê-lo como ele ainda é e compreendê-lo como ele foi. E assim, quem sabe, quando ele tombar diante de nossos olhos, talvez uma compreensão mais completa justifique sua memória ao tempo em que algo mais profundo nos faça avaliar o porquê de gostarmos tanto das corridas.

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Quando notamos o fato simples de que ele ganhou notoriedade mais pelos sérios acidentes em que se envolveu do que pelos resultados que conseguiu, e se pusermos em perspectiva a maneira excessivamente triste como morreu, viramos cúmplices partidários, e fazemos o possível para não deixar impotentemente minguar o brilho de seu espírito aguerrido, num esforço para não deixar-nos levar pela frieza dos fatos; não dá para simplesmente pejorizá-lo como a um mero desportista desmiolado. Queremos para ele um monumento digno do mais apaixonado combatente, algo que, de maneira incontestável, o livre de toda e qualquer vergonha. Confortaria-nos muito deixar em destaque seu sorriso largo no pódio da Targa Florio de 1962, ao lado dos igualmente sorridentes Olivier Gendebien e do jovem prodígio Ricardo Rodriguez. Pudéssemos congelá-lo naquele instante em que luta para concluir a corrida em primeiro no GP extracampeonato de Bruxelas, faríamos para ele, e com muita alegria, um eterno retorno num momento de intensa glória e cuidaríamos pra que houvesse para esse bruto a calmaria que se deseja para um irmão querido e atormentado, como que um refúgio seguro contra intempéries e as derrocadas do tempo; nada viria solapar esse seu intenso romance com a mecânica e a velocidade. Nada viria turvá-lo sob a pecha de piloto desastrado.

Por algum motivo traiçoeiro, tal como acontece nos sonhos, não pudemos chegar a tempo e vivificá-lo com a certeza de que não há desesperança para os heróis que um dia foram atrás da glória… e que seu espírito aguerrido prevalece. Consolo tênue o de ver seu nome hoje em dia famoso somente entre verdadeiros fãs de corridas de carro; é tão insuficiente quanto contemplar as fotos de seus maiores feitos. Ele certamente merecia mais.

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O Olhar Vidrado e Impetuoso

Foram poucos os seus triunfos, é verdade. Como foram poucos para ele os dias sem a incerteza de ser ou não de fato um grande. Houve facilmente quem o assistisse ao volante e ao notar a natureza de suas peripécias o taxasse de louco; e mesmo quem testemunhou em primeira mão sua entrega no campo de batalha, quem estava por trás de um volante quando o via contornar uma curva ou efetuar uma ultrapassagem, não deixava muita margem para a imaginação quando declarava que tipo de piloto ele era. Jim Clark o sinonimizou com um vândalo. E não dá pra negar que ele deu sim motivos para que pensassem isso dele. Mas havia algo mais nesse homem.

Sua entrega na pista era de uma veemência assustadora. Folclórica é a famosa declaração que o americano Peter Revson deu para sumarizar a primeira impressão que teve do belga, ao fitá-lo dentro do carro antes de uma largada em Spa: “Vê-lo era quase como encarar a face do próprio diabo!” Há um número de fotos hoje disponíveis na rede que confirmam o susto de Revson. O visage dans un état de course em Mairesse era de tão duro aspecto que, ainda que se soubesse que o piloto não era propriamente um sujo na pista, intimidava muito. Vemos no piloto o rosto de um hooligan – cenho fechado, olhos arregalados pressionando as órbitas debaixo das sobrancelhas arqueadas onde se lê uma testa ferozmente riscada de rugas e os lábios contraídos para baixo; certamente não era uma visão tranquilizadora no espelho retrovisor.

Mônaco, 1963.

A primeira vez que este colunista ouviu falar seu nome foi num videoteipe que eternizava o GP da Bélgica de 1962; era um dos episódios do célebre ‘Gentleman’s Motor Racing Diary‘ de John Tate, o antigo piloto de Spitfires. Ali se vê Willy Mairesse imerso no que Willy Mairesse seria exemplo, o piloto de corridas combativo por excelência. Não era combativo como Gilles Villeneuve – sua entrega ao volante não o caracterizaria como um acrobata, ele não dançava com o carro no asfalto. Mas era um romântico inveterado, crendo que nada valia mais que estar disponível a pagar o mais alto preço pela vitória; sim, o belga epitomizava como ninguém o espírito do ‘vencer ou morrer’, ele se vestia para a corrida com a mesma espécie de coragem que caracterizava um cavaleiro da justa medieval. Sempre que correu o fez com uma faca nos dentes.

Naquele velocíssimo Spa-Francorchamps de 14Km por volta, a bordo da sua clássica (e já um pouco ultrapassada) Ferrari 156 ‘Naso di Squalo‘, ousadamente se enfiou numa briga de cachorros grandes ao lutar contra Graham Hill, Clark, McLaren e Trevor Taylor pela liderança da corrida. Quando Clark resolveu desequilibrar o negócio e a honra que sobrou aos demais era somente a da luta pelo segundo lugar, Mairesse e Taylor se isolaram e digladiaram num duelo atroz… e quando os dois se enroscaram em alta velocidade precipitando juntos num acidente espetacular, aquilo parecia ser a consequência mais natural para tamanha ousadia. A exuberância tende sempre a pagar um alto preço. E o precedente já indicava que a responsabilidade pelo despiste podia ser toda do belga: dois anos antes, naquele mesmo Spa-Francorchamps, Mairesse estreia na F1 a bordo de uma Ferrari Dino 246; e assim que empunha as mãos no volante o toma uma ânsia desenfreada de provar tudo; experimentar o gosto por uma máquina de Grande Prêmio, vê-la desempenhar no limite e provar-se piloto digno da disputa mostrando que não era só outro a ocupar espaço na grelha. Em meio à corrida topa com uma máquina verde clara e vermelha, notando rápido que o piloto dessa máquina também não quer só fazer número na prova… e assim, ao se defrontar Mairesse com o britânico Chris Bristow, o duelo desemboca naturalmente numa luta ferrenha… e em meio à disputa, entre a Burnenville e a Malmedy, Bristow despista com um desfecho fatal. O belga segue alheio e, ao final da sua corrida, quando descobre que seu colega perecera, lamenta como todo ser humano lamentaria, mas enrijece como só Willy Mairesse enrijeceria. A arena é lugar onde os fracos não tem vez.

Targa Florio, 1963.

Não surpreende que ele se visse estreante a bordo de uma Ferrari de fábrica; o Comendador era grande apreciador de pilotos valentes, mecenas de talentos destemidos, aqueles cuja predileção era a de se doarem inteiramente no corpo a corpo, os que não fugiam de uma disputa roda com roda. Não por outro motivo assinalou em livro o que considerava uma falha na grandeza de Alberto Ascari: “… largando no meio do pelotão, ele não era tão batalhador.” Já a respeito de Mairesse, o Capo Italiano disse certa vez que ele “… é um rapaz muito engraçado. Tem uma vontade insuspeita, mas sua coragem é difícil de calcular. Esta é a força motriz de sua ação, sempre nutrida por um ardente zelo.” Mairesse largou em 12 GP’s oficiais, e somente dois não foram numa Ferrari. Conseguiu sua melhor colocação na F1 com o 3º lugar em Monza ’60. Naquela corrida, domínio completo da Ferrari com os três primeiros lugares ocupados na bandeirada por pilotos de Don Enzo. Foi também essa a última prova ganha por um carro de motor dianteiro na F1. No Mundial somaria mais um 7º lugar e abandonaria em todas as demais corridas.

Não obstante esse tão pouco sucesso, Mairesse foi um dos principais pilotos belgas durante toda a sua carreira. Surgido na elite graças a promoção devida a uma intensa rivalidade com o compatriota Olivier Gendebien, seu denodo fez da sua história no automobilismo mais que um apanhado de desventuras em série. Seu estilo sempre ao ataque não era muito simpático à mecânica e por várias vezes, pelo mesmo estilo, ele acabou pra lá da berma. Mas seu temperamento lutador também lhe granjeou destaque em vitórias importantes (como as duas vitórias na Targa Florio em ’62 – com Gendebien e o mais novo dos Hermanos Rodriguez – e ’66 com Herbert Müeller, além dos 1000Km de Nürburgring com John Surtees em ’63) e outras colocações de respeito, sobretudo em provas de enduro. Triunfou soberbamente nos GP’s de Nápoles e Bruxelas (ambas provas fora do Mundial em ’62), impondo-se sobre talentos incontestáveis como Moss, Clark, Surtees e Bandini.

GP de Bruxelas, 1962: liderando à frente de Moss.

Sua sede de provar-se não tinha limites. Ele definitivamente era um tipo para o tudo ou nada. Testemunhos do seu arrojo inconsequente podem ser vistos na largada do GP de Mônaco de ’62, em que largou da segunda fila e com tal ímpeto, que forçou o pole Clark a uma medida de emergência para não perder sua roda dianteira para a traseira de Mairesse. A seguir, tendo assumido meteoricamente a liderança, o belga atacou a curva do Gasômetro com tamanha vontade que deu um pião impossível de controlar; foi um milagre ter concluído a primeira curva e ter se mantido na pista no lado de dentro da antiga reta oposta, terminando a volta em 11º. Posteriormente, se creditou a ele o caos que aconteceu justamente na freada do Gasômetro, simultaneamente a essa sua manobra afoita – enrosco espetacular que tirou da páreo a Tonny Mags, Jo Bonnier, Trevor Taylor e Innes Ireland; mas observando vídeos da largada naquele dia em Monte Carlo, facilmente se descobre que ele nada teve a ver com esse grande enrosco. É uma atribuição só pela força do mito kamikase.

Mais tarde, em Junho, viveria aquele terrível dogfight com Trevor Taylor e dessa vez, o milagre foi muito maior. Tudo indica que, na volta 25,  o belga foi enganado pelo vácuo na rápida direita a meio da Blanchimont, zona de grande velocidade. A Lotus 24 de Taylor acionava a caixa de câmbio ZF através de uma haste que saia para fora da traseira do carro; o bico da 156 ‘Naso di Squalo‘ acabou enroscando nessa haste pondo o carro de Taylor em ponto-morto. “De repente” lembra Taylor, “as rotações do motor subiram e meu carro virou de lado“, e com um sorriso ladino acrescenta que “… estava indo reto pra fora da pista, e sinceramente acho que a Ferrari de Mairesse salvou minha vida. Ele me bateu de novo e endireitou meu carro ligeiramente. Se não fosse isso, eu teria ido de frente para um barranco. Assim, caí numa vala e Willy acertou um poste telegráfico, virando o carro em chamas…” O que Taylor modestamente não admite, é que o poste telegráfico em que a Ferrari de Willy bateu, caiu sobre a Lotus do inglês, dividindo o carro logo atrás de sua cabeça. Trevor saiu mancando e muito abalado; Mairesse por sua vez, que teve a sorte se ser ejetado do carro, passou semanas no hospital em Liége.

Spa, ’62: o intenso duelo entre Trevor Taylor e Mairesse.

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Origens do Kamikase Belga

Não nos sobra muita literatura a respeito de suas origens. Sabe-se nascido em Momignies, na Valônia Belga, extremo sul do país, em 1º de Outubro de 1928 e que era filho de Marcel Mairesse, um rico comerciante de madeira. Começou a carreira no automobilismo relativamente tarde em 1953, quando ele foi convidado por seu amigo Dr. Jacques-Henry Milsonne para contestaram juntos o Rally Liège-Rome-Liège a bordo do Porsche 356 de Milsonne. Tendo experimentado o primeiro gosto de uma corrida de automóvel, Willy fica fascinado, priorizando a partir dali o grande sonho de se tornar piloto profissional. Em 1955 alcança a sua primeira vitória (na sua classe, 1300cc) no supracitado Rally, tendo escrito o seu Peugeot 203 particular e trazendo o amigo Maurice Desse como navegador; na tebela geral, ele foi o 8º.

O Peugeot de Mairesse e Desse durante a Liège-Rome-Liège 1955.

Depois de alguns anos em corridas locais, ele financiou um Mercedes 300SL e fez sua estreia nas grandes competições com carros-esporte no GP des Frontières em 20 de Maio de 1956. Um ano depois, com a mesma Mercedes, vence o GP de Spa para carros-esporte. Voltou a triunfar na edição do Rally Liège-Rome-Liège, dessa vez na classe principal e com Willy Genin de navegador. Mairesse dá provas consistentes de sua vontade como piloto durante os anos de 1957 e 1958 e a incentivar a sua ascensão a Equipe Nacional Belga confia-lhe alguns dos seus carros de corrida. Ele venceu os 500Km de Spa de 1957 e no ano de 1958, disputou sua primeira corrida de 1000 km em Nürburgring (abandonada devido a defeito técnico), bem como as 24 Horas de Le Mans com Lucien Bianchi (abandonada devido a um acidente). Seu talento era relativizado pela má-sorte mas também por seu excessivo arrojo. Seus primeiros esforços produziram mais serviço para mecânicos e funileiros do que resultados positivos. Estava claro desde o início que Mairesse precisava se conter. Mas ele não pensava assim.

Mairesse com seu amigo Willy Genin, vitoriosos no Rally Liège-Roma-Liège, Agosto de 1956.

Apesar de um ano difícil em 1959, finalmente veio o grande avanço. Atraindo a atenção de Jacques Swaters e sua Ecurie Francorchamps, Mairesse assume a Ferrari 250 GT da equipe e em 1958 consegue o segundo lugar nas 12 Horas de Reims e no Tour Automobilístico da França. Houve também vários acidentes e o crescimento da rivalidade com o compatriota Gendebien; os dois protagonizaram uma épica disputa nas passagens montanhosas do Tour de France, o que chamou a atenção de Enzo Ferrari. Willy Mairesse foi então convidado a ingressar na Scuderia Ferrari para a disputa da Targa Florio de 1960. Jacques Swaters, importador belga da Ferrari, seria tão forte apoio à carreira de Mairesse que os dois se tornariam grandes amigos até o fim.

A princípio ele foi contratado para o Mundial de Marcas. Quarto na sua estreia pela equipe e terceiro nos 1000Kms de Nürburgring, a sua temporada incluiu a primeira das sucessivas vitórias no Tour Automobilístico da França, apesar de ter batido a sua Ferrari 250GT numa vala durante o trajeto. As grandes vitórias no Tour Automobilístico da França em 1960 e ’61, a Targa Florio em 1962 e os 1000 km de Nürburgring 1963 reforçariam a posição de Mairesse dentro da Scuderia. Além disso, ele era considerado um excelente piloto de testes e, entre outras coisas, esteve significativamente envolvido no desenvolvimento da Ferrari GTO.

Mairesse numa Ferrari 250 GTO nos 500Km de Spa em ’63

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Um Apogeu de Declínios

Mairesse fez sua estreia na Fórmula 1 no dia 19 de Junho de 1960, no trágico GP da Bélgica em que dois pilotos morreram – além do britânico Bristow, o também britânico piloto da Lotus Alan Stacey – e disputaria o GP seguinte em Reims, abandonando na 15ª volta por problemas no câmbio. Em 4 de Setembro voltaria para disputar o GP da Itália, em Monza, onde terminou em terceiro – o melhor resultado de sua carreira nos GP’s. Contratado pela equipe de Modena para o Mundial de Marcas em 1961, terminou em segundo lugar em Sebring e Le Mans. Venceu o GP de Spa para carros esporte e o Troféu Auvergne, ambos numa Ferrari 250GT. Contestou o GP de Reims e os 1000Km de Paris em Monthlèry, terminando ambas as corridas em segundo. Fez dupla forte com von Trips, Hill, Rodriguez e Bianchi. Em 1961 disputou dois GP’s a bordo de uma Lotus – uma da Equipe Nacional Belga (em Spa) e outra na equipe de fábrica ao lado de Jim Clark, na França. Abandonou em ambas. Disputou também o GP da Alemanha a bordo de uma 156 e lá, também não teve melhor sorte.

Acabou sendo um piloto esporádico ao volante da Ferrari na F1 durante as três temporadas seguintes, o que certamente o punha em posição de arriscar tudo a cada vez que largava. Ele abriu 1962 com aquele sucesso non-championship em Bruxelas e a vitória na Targa Florio. No acidente durante o GP da Bélgica sofreu lesões nas pernas, e não esteve apto para pilotar novamente até o GP da Itália, que terminou na quarta posição.

Spa ’62: Mairesse entre McLaren e Clark. Note quão perto do canteiro é sua tangência, e que perigo corre o fotógrafo.

Além de sair vencedor nos 1000Km de Nürburgring de 1963 e segundo em Sebring e na Targa Florio, a dupla que formava com Surtees era uma das favoritas para ganhar as 24 Horas de Le Mans. Mas a má sorte o acometeu de novo: depois de liderar 15 das primeiras 18 horas, um reabastecimento desastroso fez o carro pegar fogo enquanto Mairesse estava ao volante, ao entrar nos famosos ‘esses’ do circuito de Sarthe. Depois de se recuperar das queimaduras, volta ao volante de uma Dino 156 para o GP da Alemanha… e na rampa da Flugplatz perde o controle, desintegrando o carro vermelho de encontro ao barranco. Ejetado, o piloto sai do despiste com uma perna e dois braços quebrados; e um motorista de ambulância da cruz vermelha que estava no local levou ainda pior que Mairesse: atingido por uma roda, teve morte instantânea. E o belga não desiste. Em 1964 venceu em Luanda o GP de Angola para carros-esporte pilotando uma Ferrari 250LM para Equipe Nacional Belga, foi o destaque de um ano ruim, em que só correu em duas provas importantes.

Passou-se mais de um ano até que ele corresse novamente, mas sua campanha de carros esportivos de 1965 incluiu a vitória no Grande Prêmio de Spa para Carros Esporte e um terceiro lugar em Le Mans em dupla com Jean “Beurlys” Blaton, a bordo de uma Ferrari 275GTB da Ecurie Francorchamps. Foi terceiro também nas 12Hrs de Reims. Beurlys tornaria-se companheiro constante de Mairesse nas pistas.

Uma mudança para Escuderia Filipinetti em 1966 trouxe sua última grande vitória, dividindo um Porsche 906 com Herbert Müller na Targa Florio – e isso depois de ser terceiro nos 1000KM de Monza, também com Müller. Foi uma vez mais terceiro em Le Mans no ano de 1967, a bordo de uma espetacular Ferrari 330P4 da Ecurie Nationale Belge em companhia de Beurlys.

A Ferrari 330P partilhada com Beurlys nas 24Hrs de Le Mans de 1967.

Mairesse nos 1000Km de Spa-Francorchamps de 1967.  

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O Fim

Chega o triste ano de 1968, decisivo e fatal para grandes nomes do automobilismo. A primavera trouxera baixas muito doloridas, a começar pela morte do imenso Jim Clark em 7 de Abril. Nos meses que se seguiram, foram ceifadas as vidas de Mike Spence (exatamente um mês depois de Clark, testando o Lotus Turbina em Indianápolis), de Ludovico Scarfiotti (exatamente um mês depois de Spence, a bordo de um Porsche 910 num trial de subida de montanha na Alemanha) e de Jo Schlesser (exatamente um mês depois de Scarfiotti, num acidente pavoroso a bordo de uma Honda experimental no GP da França). Marcado por coincidências trágicas, foi dos períodos mais negros da História do Automobilismo.

Para Mairesse o calendário começou ao final de Abril nos 1000Km de Monza, pilotando o Ford GT40 amarelo de Claude Dubois; em dupla com Beurlys, estava em segundo na classe principal (Sport 5 Litros) quando enfrentou problemas na roda, terminando em sétimo a onze voltas do final. Seguiu-se os 1000Km de Spa em que, inscrito novamente com Beurlys pela Ecurie Francorchamps, se acidentou na 46ª volta. E finalmente, sua última corrida teve lugar nas 24Hrs de Le Mans naquele Ford amarelo de Dubois.

O Ford GT40 que Mairesse pilotou em Le Mans, 1968

 

A 36ª edição do grandioso enduro, normalmente disputado no segundo ou terceiro fim de semana de Junho, acabou sendo adiado para Setembro por conta das revoltas populares que assolaram a França a partir de Abril. Havia grande espectativa em torno do páreo de Mairesse com Beurlys. A corrida começou as 16h00 do dia 28. Mas a tradicional largada em Le Mans, com pilotos atravessando a pista correndo para entrar em seus carros, o levou a automatizar demais seus movimentos para entrar e dar partida no bólide; ele afivelou o cinto porém se esqueceu de fechar a porta do carro de maneira adequada. Não é de admirar que um ano depois, o seu compatriota Jacky Ickx petulantemente protestasse caminhando pacientemente para seu carro na largada, enquanto todos corriam; para Ickx aquela largada era puro absurdo e já tinha custado vidas demais ao incentivar os ases a não afivelar o cinto de segurança.

 

Largada em Le Mans ’68: note a porta direita do Ford amarelo semi-aberta.

Logo na primeira volta, em plena reta Mulsanne, a 250km/h, a porta do Ford de Mairesse se abriu fazendo com que o piloto perdesse o controle do carro e desaparecesse em meio às árvores. Após bater no murro de uma casa, o carro virou um amontoado lamentável de destroços e seu piloto dentro, desacordado e com sérios ferimentos na cabeça e nos membros.

Ele passou seu aniversário de 40 anos em coma num leito de hospital, ficando nessa condição ainda por duas semanas antes de recuperar os sentidos e perceber, com horror, que seu senso de equilíbrio estava comprometido talvez para sempre. Levaria longos meses até que o pobre Mairesse fosse capaz de executar os gestos mais simples. Ele foi desenganado pelos seus médicos a respeito da continuidade de sua carreira nas corridas. Para ele isso foi o fim.

O Longo e Dolorido Adeus

Willy e Dorinne em Nürburgring.

Longe das pistas, Willy Mairesse se tornou cada vez mais uma figura amarga e triste. Sua esposa Dorinne, seus dois filhos, sua mãe Jacqueline e seu melhor amigo (e diretor da Ecurie Nationale Belge) Jacques Swaters se revezavam nos cuidados e no incentivo ao moribundo, mas já não era possível para ele o tolerar uma vida que não lhe permitisse voltar ao volante numa disputa. Tornou-se agressivo para com aqueles que o amavam, a tal ponto que a esposa e os filhos tiveram que abandoná-lo.

***

Passa-se quase um ano. Faltavam poucas semanas para que completasse 41 anos. Imaginando que tivesse assistido a disputa eletrizante naquele domingo do GP da itália de ’69 através da televisão, é fácil pensar que o belga lembraria de seu momento mais alto na disputa do Mundial, exatamente em Monza, com um terceiro lugar nove anos antes a bordo de uma Ferrari. Para alguém com o amor que nutria pelo esporte, vendo-se irremediavelmente impossibilitado de voltar a praticá-lo, certamente viveria uma enxurrada de sensações conflitantes ao recordar aquele momento radioso, sendo piloto da casa de Maranello em meio à multidão exultante dos tifosi, num dia de glória para o automobilismo italiano, fazendo parte de um pódio todo feito pelos carros vermelhos do Comendador. Não é difícil enumerar esse hipotético momento de dolorida nostalgia entre os fatores psicológicos que o levaram a quitar-se da vida dois dias depois.

O historiador Doug Nye escreveu: “Jacques Swaters me contou que os ferimentos de Willy Mairesse em Le Mans o deixaram fisica e mentalmente debilitado e que, quando lúcido, ele se desesperava para se recuperar completamente deles. (…) Após o acidente de Le Mans, ele passou a considerar-se como tendo falhado, tristemente, na ambição de sua vida e com a certeza de que o esporte que escolhera e seu modo de vida preferido agora seriam negados a ele; ele simplesmente não viu nenhum propósito em se submeter a esse futuro… então, deu o passo para garantir que nunca viesse a vivê-lo.”

(…)

Willy Mairesse tomou um trem para Ostende, locou um quarto com vista para o mar, esperou a noite de terça e decidiu nunca mais acordar, tomando uma dose fatal de soníferos. Sobre a escrivaninha deixou um bilhete direcionado para a amada Dorinne, a mãe e o amigo Swaters: “(…) Perdoem-me, mas não havia outro jeito.”

Seu corpo repousa junto aos restos de seus pais num túmulo simples, sem nenhum elogio fúnebre, à esquerda na via principal do Cimetière de Momignes, na Route Bailièvre… sua bravura permanece a nos inspirar.

 

 

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